Sunday, February 3, 2013

Temas e Ideias III


Alegoria / Parábola – considerações sobre o género

Uma parábola, tal como uma alegoria, é um pequeno texto ( que pode ser ou não oriundo de tradição oral) que contém uma lição.
A lição é uma matéria de conteúdo ético (moral) alusivo a comportamentos individuais ou sociais, ou de conteúdo religioso.
Regra geral subtil, para que o próprio tire a sua própria conclusão, pode ter um carácter mais poético, ou mais filosófico, na sua expressão.
A Bíblia, sobretudo no Novo Testamento, pela boca de Jesus falando aos discípulos, contém imensas parábolas, indicando comportamentos éticos a seguir: é o caso, entre tantas outras, da parábola dos vinhateiros homicidas (Marcos.12); a parábola do semeador (Lucas.7), de que darei o exemplo:
“Reunindo-se uma numerosa multidão que de cada cidade vinha até ele, Jesus falou em parábola:
‘O semeador saiu a semear sua semente. Ao semeá-la, uma parte da semente caiu ao longo do caminho, foi pisada e as aves do céu a comeram.Outra parte caiu sobre a pedra e, tendo germinado, secou por falta de humidade. Outra caiu no meio dos espimhos, e os espimhos, nascendo com ela, abafaram-na. Outra parte, finalmente, caiu em terra fértil, germinou e deu fruto ao cêntuplo’. E, dizendo isso, exclamava: ‘Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”
Encontramos mais exemplos de parábolas em Lucas, como a do bom samaritano (Lucas.10 ), ou ainda, com outra desgnição, mas significando o mesmo, “ditos”, como os “Dois ditos sobre a lâmpada” (Lucas.11):
‘Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la em lugar Escondido ou debaixo do alqueire, e sim sobre o candelabro, a fim de que os que entram vejam a luz(…) Por isso vê bem se a luz que há em ti não é treva”….etc.

O que interessa, quanto ao género literário, é que parábolas, alegorias, ditos – são formas universais que encontraremos em todas as culturas, tal como os mitos e lendas de que já nos ocupámos em parte. 
Assim como nas parábolas atribuídas a Jesus pelos seus discípulos encontramos uma lição de comportamento e vida, iremos encontrar nas alegorias medievais, apresentadas sob formas teatrais incipientes, modelos de educação cristã: há muitas alegorias sobre os mandamentos, sobre os pecados capitais, a luta de Anjos ou diabos pela alma do homem, etc.

O exemplo que vou dar de uma alegoria oriental como a de Tchouang-Tseu não é mais do que uma variante, que neste caso apresenta dois conceitos: de rapidez, ou de velocidade que hoje em dia são até muito discutidos como razão profunda para o stress de vida e a desorientação que causa, em todos os domínios, político, social, cultural, pessoal...
Tchouang-Tseu

Uma pequena parábola que, como tantas outras reflexões deste filósofo taoista, merece a nossa atenção, é aqui traduzida da edição francesa da Pléiade, PHILOSOPHES TAOISTES, Lao-tseu, Tchouang-tseu, Lie-tseu, 1980.

A parabola é antecedida de uma série de perguntas que um discípulo faz ao Mestre:
“- Mestre com quem haveis aprendido o Tao?
-Aprendi-o com o filho da escrita; este com o neto da leitura; esta com a iluminação; esta com a atenção continuada; esta com o esforço penoso; este com o cântico; este com a escuridão profunda; esta com o vazio supremo; este com o sem-princípio".

Nesta sucessão se apresenta o fio condutor que leva o estudioso, o filósofo, à suprema Via ( o Tao), ao supremo conhecimento que  só a alguns poderá ser concedido.
Noutro momento veremos outro filósofo, Lao-tseu afirmar, no Tao Te King (poema LXX):
“ Os que me compreendem são muito raros.
 Por essa razão sou eu mais estimado”. 

Passemos então à misteriosa parábola, com que se encerra o conjunto das meditações filosóficas de Tchouang-tseu:

“O soberano do mar do Sul chamava-se Rapidamente; o soberano do mar do Norte chamava-se Subitamente; o soberano do Centro chamava-se Indistinção. Um dia Rapidamente e Subitamente encontraram–se no país de Indistinção, que os tratou com grande benevolência.Rapidamente e Subitamente quiseram recompensar o seu bom acolhimento e disseram: ‘ o homem tem sete orifícios para ver, ouvir, comer, respirar. Indistinção não tem nenhum. Façamos esses furos’. Metendo mãos à obra, fizeram-lhe um buraco por dia. No sétimo dia Indistinção morreu”.
(ed. Pléiade, p.142)

A reflexão que nos é pedida não é fácil: o que significam esses reinos de Rapidamente e Subitamente?
E o reino de Indistinção? Situado ao Centro?
E por que razão ao receber características que não tinha, como neste caso as próprias do ser humano,– este soberano morre em vez de ficar mais poderoso, como os outros julgavam? 
O que há no Centro e na Indistinção que é tão perfeito que não pode (não deve ) ser alterado?
E muito menos por impulsos como o da rapidez e do instantâneo?
Poderemos equiparar estes sete dias que supostamente seriam de criação de um novo soberano aos sete dias da criação de que se fala no Génesis? 
E sendo assim a criação de algo que retirou a vida e as criaturas do Vazio Primordial,
(O Centro da Indistinção, o Sem-Fundo de que falam místicos  como Meister Eckcart no século XIV ou   Boehme no século XVII, entre outros) terá sido um erro, já sem emenda?
O que nos ensina a filosofia taoista em comparação com os sistemas ocidentais conhecidos?
Ficam as perguntas, aguardam-se as respostas.

Nas respostas que surjam estará contido o segredo do Tao como via de perfeição absoluta, aquela que é dita não ter nome, pois já ter um nome seria limitação. O Tao não tem nome porque nele cabem todos os nomes.
Mas isto seria já mudar de filósofo e de texto, passando para os poemas do célebre Tao Te King. 





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