Wednesday, November 27, 2013

Banhocas


Não,
esta manhã, quarta-feira,
não é manhã de poema
é manhã de ocupação
bem terrena:
a banheira cheia de água
as crianças na banheira
uma bela esfregadela
e muitos beijinhos dados
para secar a choradeira!


Tuesday, November 19, 2013


ROMÃS

Já pesam as romãs semi-abertas
nas romãzeiras molhadas

cairam as chuvas da tarde
aguardam-se os beijos fatais
que só os Anjos concedem

bagos vermelhos
em bocas apetecidas

jardins de Inverno
onde se perdem as vozes
onde se abrem feridas

onde secretamente
mais árvores são plantadas

Tuesday, October 8, 2013

Tuesday, September 24, 2013


BALADA PARA O ANTÓNIO
in memoriam

 Aquela era a casa inocente
aquela era a casa feliz,
o portão não tinha grades
e tu vias toda a gente
ao jardim vinham gaivotas
a mãe dizia não pousem
pois será a chuva certa
e fugias para o quarto
que tinha a janela aberta
esperando o amigo fiel
o pescador dos segredos
que surgia de repente
e te embarcava com ele
em noites de lua negra
em direcção ao mar alto
às grutas mais escondidas
que só ele iluminava

-Vem comigo e nunca temas,
são as águas mais antigas
será esta a nossa casa
a magia renovada
do prazer mais inocente
aqui dormiremos juntos
com as estrelas do mar
a embalar-nos para sempre...

Outono de 2013



Monday, September 23, 2013




Corações

Bateu à porta do coração:
não respondeu
estava fechado
tinha um selo
e por cima do selo
um cadeado

Sunday, September 15, 2013

Escrita Criativa: As Pratas e as Almas

Escrita Criativa: As Pratas e as Almas

Antigamente
 areavam-se as pratas
 e as almas
 eram postas de lado

Agora já não há pratas
 e as almas
escurecidas
não se podem encontrar...

Thursday, September 12, 2013





Tão frágil,
coração de cristal:
não bate
e quando lhe tocam
parte!

Wednesday, September 11, 2013




Um Setembro suave
as manhãs em suspenso
um vôo como de ave
a afugentar o medo...

Wednesday, August 14, 2013

Escrevo de madrugada
quando acordo
e preciso de falar...

Var. I
Acordo de madrugada
e escrevo
quando preciso de falar...

Metamorfoses de Inanna

A Terra chama:
a Terra-Mãe

Mãe carinhosa
como se diz na canção

Inanna:
nana  
nana
uma canção de embalar

a Terra chama:
o corpo fica
é um tributo a pagar

um sopro
nos fecha os olhos

um sopro 
nos leva a alma

para podermos voar




Sunday, July 21, 2013







MORRER


Morrer 
é de madrugada
quando a noite acabou
e o dia ameaça não nascer…

Saturday, July 20, 2013



Damas da Noite

Um perfume
que atrai:
são as Damas da Noite
no seu jardim perfeito
em que os pássaros dormem
e as águas ainda correm
no seu leito de pedras
e de estrelas

Um vagabundo passa
como sombra esquecida:
o portão não se abre
a mão não é estendida

Outro dia virá
e outra noite:
junto às Damas da Noite
se esvairá a vida

Thursday, July 18, 2013

Ainda os Velhos





Ainda os Velhos


Não adianta

ainda nos vermos 
ao espelho:
a velhice
já nos tornou
invisíveis.

Aprendemos
as lições 
do ser
e do não ser
o deixar de existir.

Monday, July 15, 2013



Ler:
não quero intensidade
quero leveza
palavras
que me lavem os olhos
como gotas macias
palavras
que me adormeçam
afastando
este  cansaço dos dias

Monday, June 24, 2013



Por que choram os Anjos?
porque morrem
e Deus não acode
a salvá-los!

24 de Junho 2013

Thursday, June 13, 2013

Sintomas



SINTOMAS  (para um novo romance?)

Não terá certamente influência, mas sempre tomo nota: é dia 13 de Junho de 2013.
Evoca-se Fernando Pessoa, tinha de ser: nas ruas, nas festas populares, nas livrarias, nos canais (alguns) de televisão.
Muita cultura? Pouca vida sentida, pouca vida vivida.
Entro num café. Em frente ao balcão, onde vou pedir um leite com chocolate da UCAL ( para o que me havia de dar...) uma senhora de idade.
Digo uma senhora de idade, mas deve ser da minha idade. Podia ser eu.
Hesita, olhando para os bolos e os salgados, enquanto a jovem que está a atendê-la, aguarda, amável, com um sorriso. A senhora hesita porque lhe fugiu de repente da memória o nome do salgado, sim era um salgdo, que queria pedir.
Foi apontando com um dedo, a menina ajudava: 
- Um rissol? Estes são de camarão, este de leitão.
-Há rissóis de leitão? inquiriu a senhora, enquanto tentava recordar o nome do salgadinho escuro, triangular, mais ao fundo da travessa.
-Há sim, há de leitão. É o que quer?
-Não, não...é em triângulo, um picante...
-Se calhar é um bolo? um palmier?
-Não, não é bolo.
A senhora apontou com o dedo o triângulo picante, escurinho, que na verdade se via mal, quase debaixo dos rissóis. É aquele.
-Ah, exclamou a jovem, aliviada, não fosse a senhora ir embora e o patrão zangar-se com ela. Isso é uma chamussa. É muito picante, tem a certeza? 
-Tenho, tenho. 
A senhora também respirou de alívio.
Acontecia-lhe agora com mais frequência escapar-lhe um nome, de pessoa ou de objecto, ou como ali, de comida, no preciso momento em que era preciso nomear.
Indicar seria fácil, mas nomear estava a tornar-se difícil e aborrecido.
Agradeceu: obrigada, menina.
-Pode ir para a mesa, que já levo.
A senhora agradeceu de novo e foi sentar-se.

Eu bebi o meu chocolate ali mesmo, de pé.
Já me tinha acontecido o mesmo. Precisar de um nome e ele desaparecer.
Ao computador dava erros de dislexia.
Mas havia pior: não saber que comprimidos tinha tomado, e quantos.
Esquecer de imediato a conversa que tinha tido.Não o sentido geral, mas a razão da conversa, ou o seu início, coisas assim.
Na hora de pagar, tinha uma nota de vinte euros no bolso, paguei e fiquei à espera do troco.
Olhei para a senhora. Tinha comido a sua chamussa, sem beber nada, nem um copito de vinho branco, nem sequer um café.
Estive quase quase a meter conversa com ela.

O que agora me espanta, é que no acto de escrever esta pequena nota, não é sobre a dificuldade dela que estou a pensar, mas sim em como se escreve a palavra chamussa: com os dois ss que utilizei ou com o ç de cedilha, como se costuma dizer.
Preciso de um dicionário!


Thursday, May 23, 2013



Infâncias:
lugar de ausências
não de lembranças...


(Junho 2013)

Thursday, April 25, 2013

OS ANJOS SÃO TERRÍVEIS


Os Anjos São Terríveis



Os Anjos são terríveis:
de vez em quando surge um
que se destaca
e crava as suas garras de luz
no peito desprevenido

Contempla a suave curva
do dia
na ferida rasgada

Afasta-se:
viu a treva formar-se
e ao longe não ouve o grito 

Os Anjos são terríveis:
não falam
não dizem nada



25 de Abril, 2013

Sunday, April 14, 2013

A Falar com o Rui Zink

Tens razão, amigo Rui:
o mundo é feito de muitos
o mundo é feito de todos
mas só governam uns poucos
e esses não são nada tolos
desenharam uma esfera
onde se escondem
dos outros
e onde ficam à espera
centrados no seu umbigo:
não é o Umbigo do Mundo
a Montanha do Saber
é um ponto pequenino
que não se consegue ver
...
enquanto ali se retiram
o mundo corre perigo!

Wednesday, February 20, 2013

Wednesday, February 6, 2013

Temas e Ideias IV

Continuo com a apresentação de temas e ideias, que podem ser sugestivos no acto de algum exercício de criação.
Neste caso proponho que se reflicta sobre o Mito de Prometeu.

O MITO DE PROMETEU

O que o fogo permitiu:
afastar os animais perigosos dos espaços onde o grupo se reunia;
iluminar as grutas e cavernas que foram os primeiros refúgios;
aquecer esses espaços;
transitar para fora de espaços mais agrestes e erguer outros, cabanas de madeira,
por ex. que os animais já não atacariam;
cozinhar os alimentos, o que ajudava à sua preservação;
nalguns casos, quando tal era o costume, incinerar os cadáveres;
e mais:
forjar as armas, e quaisquer outros instrumentos de utilidade prática;
derreter os metais e trabalhar ornamentos: colares, pulseiras, broncos.

Dominar o fogo  era adquirir um poder que até então só se atribuía aos deuses:
nasce o mito de Prometeu que sera castigado por Zeus (deus do relâmpago e do trovão).
Leia-se o poema de Goethe (trad. João Barrento)

Prometeu
Cobre o teu céu, ó Zeus,
De vapores de nuvens!
E ensaia, como um rapaz
Que decapita cardos,
As tuas artes em carvalhos e cumes!
A minha terra, essa
Tens de deixar-ma,
E a minha cabana,
que não construiste,
E o meu lume,
Cujo fogo
Me invejas.
….
Quando eu era criança,
Sem saber que pensar nem que fazer,
Voltava para o Sol os olhos
Perdidos, como se lá em cima houvesse
Um ouvido para o meu lamento,
Um coração como o meu
Para se compadecer dos oprimidos.
….
Eu, venerar-te, Para quê?
Aliviaste tu alguma vez
As dores dos que sofrem?
Alguma vez secaste as lágrimas
Dos angustiados?
E quem forjou em mim o Homem,
se não o Tempo todo poderoso
E o Destino eterno,
Senhores de ti e de mim?
….
Aqui estou eu, criando Homens
À minha imagem,
Uma estirpe igual a mim,
Que sofra e chore,
Goze e se alegre,
E não te respeite,
Como eu.


Neste poema Goethe, com subtileza, descreve o caminhar do Homem que, da infância primordial ascende a uma alta consciência de si mesmo – através do poder de emancipação que a descoberta do fogo lhe concedeu. Os deuses, ou o dues lá do alto nada é, em nada ajuda o ser humano, e é um logro julgar que através de oferendas a figuras inexistentes, vazias de sentido, alguma coisa do destino humano se pode modificar.
Estamos no século XVIII, com os Iluministas (cultores da Razão esclarecida) que fazem deste mito a sua bandeira, o suporte da sua doutrna de emancipação.
É o século dos Enciclopedistas franceses (Voltaire, Diderot, entre outros) e dos novos conceitos que estarão na base da franco-maçonaria e da futura Revolução de 1789.

Este grito de revolta da alma – que não deseja peias de espécie nenhuma, deseja  ser livre e afirmar-se igual ao criador, despertará sobretudo o entusiasmo dos Românticos do século XIX.

No antigo relato da origem do mito Prometeu é descrito como tendo criado o primeiro homem a partir de um bocado de argila misturado com água. Para não deixar a sua criatura desprotegida rouba ao sol uma faúlha do seu fogo e de regresso à terra oferece o fogo aos homens, que entretanto se tinham multiplicado.
Para se vingar, Zeus envia aos mortais Pandora, com a sua caixa de malefícios, e quanto a Prometeu prende-o no alto do monte Caucaso, onde durnte séculos uma águia viria comer-lhe o fígado, que logo se refazia, causando-lhe um sofrimento sem fim. Mais tarde sera perdoado, e é Hércules que mata a águia com uma das suas flechas. 

Para a psicanálise do fogo, elemento por excelência de transformação e transmutação ( o chumbo em ouro, nos alquimistas….) ler Gaston Bachelard, A Psicanálise do Fogo, cap.VII, “o fogo idealizado”: fogo e pureza.





Sunday, February 3, 2013

Temas e Ideias III


Alegoria / Parábola – considerações sobre o género

Uma parábola, tal como uma alegoria, é um pequeno texto ( que pode ser ou não oriundo de tradição oral) que contém uma lição.
A lição é uma matéria de conteúdo ético (moral) alusivo a comportamentos individuais ou sociais, ou de conteúdo religioso.
Regra geral subtil, para que o próprio tire a sua própria conclusão, pode ter um carácter mais poético, ou mais filosófico, na sua expressão.
A Bíblia, sobretudo no Novo Testamento, pela boca de Jesus falando aos discípulos, contém imensas parábolas, indicando comportamentos éticos a seguir: é o caso, entre tantas outras, da parábola dos vinhateiros homicidas (Marcos.12); a parábola do semeador (Lucas.7), de que darei o exemplo:
“Reunindo-se uma numerosa multidão que de cada cidade vinha até ele, Jesus falou em parábola:
‘O semeador saiu a semear sua semente. Ao semeá-la, uma parte da semente caiu ao longo do caminho, foi pisada e as aves do céu a comeram.Outra parte caiu sobre a pedra e, tendo germinado, secou por falta de humidade. Outra caiu no meio dos espimhos, e os espimhos, nascendo com ela, abafaram-na. Outra parte, finalmente, caiu em terra fértil, germinou e deu fruto ao cêntuplo’. E, dizendo isso, exclamava: ‘Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”
Encontramos mais exemplos de parábolas em Lucas, como a do bom samaritano (Lucas.10 ), ou ainda, com outra desgnição, mas significando o mesmo, “ditos”, como os “Dois ditos sobre a lâmpada” (Lucas.11):
‘Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la em lugar Escondido ou debaixo do alqueire, e sim sobre o candelabro, a fim de que os que entram vejam a luz(…) Por isso vê bem se a luz que há em ti não é treva”….etc.

O que interessa, quanto ao género literário, é que parábolas, alegorias, ditos – são formas universais que encontraremos em todas as culturas, tal como os mitos e lendas de que já nos ocupámos em parte. 
Assim como nas parábolas atribuídas a Jesus pelos seus discípulos encontramos uma lição de comportamento e vida, iremos encontrar nas alegorias medievais, apresentadas sob formas teatrais incipientes, modelos de educação cristã: há muitas alegorias sobre os mandamentos, sobre os pecados capitais, a luta de Anjos ou diabos pela alma do homem, etc.

O exemplo que vou dar de uma alegoria oriental como a de Tchouang-Tseu não é mais do que uma variante, que neste caso apresenta dois conceitos: de rapidez, ou de velocidade que hoje em dia são até muito discutidos como razão profunda para o stress de vida e a desorientação que causa, em todos os domínios, político, social, cultural, pessoal...
Tchouang-Tseu

Uma pequena parábola que, como tantas outras reflexões deste filósofo taoista, merece a nossa atenção, é aqui traduzida da edição francesa da Pléiade, PHILOSOPHES TAOISTES, Lao-tseu, Tchouang-tseu, Lie-tseu, 1980.

A parabola é antecedida de uma série de perguntas que um discípulo faz ao Mestre:
“- Mestre com quem haveis aprendido o Tao?
-Aprendi-o com o filho da escrita; este com o neto da leitura; esta com a iluminação; esta com a atenção continuada; esta com o esforço penoso; este com o cântico; este com a escuridão profunda; esta com o vazio supremo; este com o sem-princípio".

Nesta sucessão se apresenta o fio condutor que leva o estudioso, o filósofo, à suprema Via ( o Tao), ao supremo conhecimento que  só a alguns poderá ser concedido.
Noutro momento veremos outro filósofo, Lao-tseu afirmar, no Tao Te King (poema LXX):
“ Os que me compreendem são muito raros.
 Por essa razão sou eu mais estimado”. 

Passemos então à misteriosa parábola, com que se encerra o conjunto das meditações filosóficas de Tchouang-tseu:

“O soberano do mar do Sul chamava-se Rapidamente; o soberano do mar do Norte chamava-se Subitamente; o soberano do Centro chamava-se Indistinção. Um dia Rapidamente e Subitamente encontraram–se no país de Indistinção, que os tratou com grande benevolência.Rapidamente e Subitamente quiseram recompensar o seu bom acolhimento e disseram: ‘ o homem tem sete orifícios para ver, ouvir, comer, respirar. Indistinção não tem nenhum. Façamos esses furos’. Metendo mãos à obra, fizeram-lhe um buraco por dia. No sétimo dia Indistinção morreu”.
(ed. Pléiade, p.142)

A reflexão que nos é pedida não é fácil: o que significam esses reinos de Rapidamente e Subitamente?
E o reino de Indistinção? Situado ao Centro?
E por que razão ao receber características que não tinha, como neste caso as próprias do ser humano,– este soberano morre em vez de ficar mais poderoso, como os outros julgavam? 
O que há no Centro e na Indistinção que é tão perfeito que não pode (não deve ) ser alterado?
E muito menos por impulsos como o da rapidez e do instantâneo?
Poderemos equiparar estes sete dias que supostamente seriam de criação de um novo soberano aos sete dias da criação de que se fala no Génesis? 
E sendo assim a criação de algo que retirou a vida e as criaturas do Vazio Primordial,
(O Centro da Indistinção, o Sem-Fundo de que falam místicos  como Meister Eckcart no século XIV ou   Boehme no século XVII, entre outros) terá sido um erro, já sem emenda?
O que nos ensina a filosofia taoista em comparação com os sistemas ocidentais conhecidos?
Ficam as perguntas, aguardam-se as respostas.

Nas respostas que surjam estará contido o segredo do Tao como via de perfeição absoluta, aquela que é dita não ter nome, pois já ter um nome seria limitação. O Tao não tem nome porque nele cabem todos os nomes.
Mas isto seria já mudar de filósofo e de texto, passando para os poemas do célebre Tao Te King. 





Temas e Ideias II

Aristóteles será sempre um bom primeiro passo para discutir géneros literários - seu futuro moderno e modernista rompimento - e sobretudo a universalidade da matéria mítica que nos apresenta e constitui a base do nosso imaginário colectivo: através das suas reflexões iremos ler Eurípides, meu preferido, e os outros grandes, como Sófocles ou Ésquilo.


ARISTÓTELES, Poética
Com Aristóteles estamos no século IV a.C.
Já se conhecia a obra de Platão, com o seus diálogos, atribuídos a Sócrates, que teria sido o grande filósofo –fundador do pensamento ocidental.
Na Poética Aristóteles sistematiza o que se entende ser a Arte, Arte como Imitação, e os diferentes géneros e seus meios de estruturação e expressão, a saber:
 a Tragédia, a Comédia, a Epopeia.
Paremos a reflectir na definição de Arte, que no seu texto é referida como POESIA (do grego Poiesis, significando Criação; isso permite que se refira esta Poesia como Arte, em geral, se quisermos alargar a outros domínios da criação).
“Poesia é imitação”
Imitação de quê : imitação do real, imitação do imaginário, sendo então esta imitação igualmente uma projecção do nosso mundo consciente ou inconsciente?
O conceito de real: a realidade objectiva, do meio social, cultural, politico, mítico – neste caso da Antiguidade Clássica? Os mitos faziam parte de um mundo que projectava o próprio mundo dos humanos, tendo os deuses e heróis as mesmas qualidades e defeitos de que os humanos padeciam. 
Na Epopeia narrava-se, na tragédia ou na comedia expunham-se tais realidades ao mesmo tempo divinas e humanas.
De que modo se imitava?
Imitava-se com ritmo e harmonia (quer sonora, na música ou na poesia, que era cantada) quer na dança ( aí a exigência era feita aos movimentos do corpo) quer nas acções expostas em palco cada qual com sua linguagem própria.
Pela imitação, nessas diversas formas, o que se exprimia?
Exprimiam-se as acções, os comportamentos, os sentimentos e emoções quer de carácter mais nobre e elevado ( como faz Homero na Ilíada e na Odisseia) quer mais próximos da verdadeira natureza humana (como faz Eurípedes nas suas tragédias), de que As Bacantes ou Medeia são os melhores exemplos.

Vemos então que a Arte como Imitação conduz, ou pode conduzir (ou deve conduzir?) ao conhecimento: do mundo (ou seja dos outros, da sociedade em geral, daí a dimensão política e de intervenção que pode assumir), dos outros e sobretudo de nós mesmos: como criadores, no acto de criação, ou como espectadores ou apreciadores da arte de que nos sentimos próximos.
Assim se coloca - pela Arte – o problema do Conhecimento: criar é conhecer, ou dar a conhecer.

Chega-se ao conhecimento pela Interrogação: a arte interpela o real : o nosso e o dos outros: o objectivo e o subjectivo (por mais recôndito que seja ou que pareça)
Podemos sair daqui facilemente para a nossa época, e escolher, por exemplo, as Interrogações de Alice, pela mão inspirada de Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas)
 ou pela mão angustiada de Franz Kafa, no (Processo ou na Metamorfose)
em vários poemas de F.Pessoa ortónimo 

Temas e Ideias - I
Leituras
Pediu-me um dos alunos uma lista de autores para ler (com tempo…)

Homero, Ilíada e Odisseia
Aristóteles, Poética
Eurípides, as Tragédias (ex. As Bacantes)
Dante, O Paraíso
Dom Dinis, Cantigas de Amigo (Lírica Medieval Portuguesa)
Padre António Vieira , Sermões; História do Futuro
Rosário Sá Coutinho, Mulheres Aventureiras (pequenas biografias romanceadas de mulheres da História de Portugal)
Cervantes, D.Quixote

Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver
J.W. Goethe, Werther; Afinidades Electivas; Wilhelm Meister; Fausto I e II (trads. de João Barrento)
Contos dos Irmãos Grimm
Consiglieri Pedroso ( Contos Populares Portugueses )

Almeida Garrett
Eça de Queirós 
Fernando Pessoa
Almada Negreiros

Tolstoi ( Guerra e Paz)
Rainer Maria Rilke
George Orwell (1984)
Virginia Woolf
Franz Kafka
Thomas Mann (A Montanha Mágica; Morte em Veneza)
Hermann Hesse

Proust, (Em Busca do Tempo Perdido)
Marguerite Duras
Marguerite Yourcenar
Gabriel García Marquez (Cem Anos de Solidão) 

José Cardoso Pires
Sophia de Mello Breyner
Virgílio Ferreira
Miguel Torga
Jorge de Sena
Agustina Bessa Luís

José Saramago ( Memorial do Convento; O Ano da Morte de Ricardo Reis)
Helder Macedo
Maria Velho da Costa
António Lobo Antunes
Mário Cláudio
Lídia Jorge
Miguel Sousa Tavares (Equador)
Rui Zink , O Anibaleitor
A Instalação do Medo

 Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, pelo universal interesse que mantém!



Temas e Ideias

Com tempo irei colocando aqui matéria que foi objecto de estudo e discussão num cursinho que dei outrora, de Escrita Criativa.
Aos alunos competia o maior e mais difícil exercício: o de reagir, escrevendo, aos temas que foram propostos. Com total liberdade, aceitação ou recusa, mas forçando a mão menos habituada e a mente mais preguiçosa a esse esforço, a esse treino, de quem queira ser um dia escritor.