Thursday, February 11, 2016

A CASA


Os filhos voltam a casa.
Os pais já não estão lá
mas eles voltam à mesma

ali cresceram,
ali foram amados,
recuperam memórias
escondidas num baú

sentem no rosto
quem sabe o sopro
de algum Anjo
que por ali se atardou
na esperança de os ver,

os Anjos não abandonam
as casas mais felizes,

os filhos voltam a casa,
tempo dos pais outrora,
a casa esperou por eles
e eles voltam,
chegada a hora

( à Isabel Almasqué, depois de ler o seu post
em doma.deoutramaneira)


Monday, February 8, 2016

Haiku

Haiku do dia seguinte...

Não é fácil a ida
a travessia:
Caronte nem sempre aceita
as moedas que levamos
ao recuar
recuperamos a vida

Friday, February 5, 2016

Se não gostam



                                              Se não gostam,
paciência:
sou simplória

na rosa
vejo uma rosa

na esfera
vejo uma esfera

não invento
uma história

sou mesmo assim
terra-a-terra


(Fevereiro, 2016)

Wednesday, January 20, 2016

MÃOS


Pego na mão envelhecida.

Por entre os dedos finos
escorre a areia do tempo:
vejo na pele,
entre as veias e as rugas,
a flôr dourada da vida...

(a Teresa Dias Coelho, 2016)

Thursday, January 7, 2016

A MENINA E A ESTRELA


Era uma vez uma menina que vivia numa casa entre a floresta e o mar.
Ao longe via-se uma alta montanha que parecia tocar no céu.

Um dia a menina decidiu sair de casa e pôr-se a caminho por uma estreita ponte, muito fina, entre a floresta e o mar.

Caminhou, caminhou, dia e noite, noite e dia, com cuidado para não se perder na floresta, onde havia animais perigosos e não cair no mar, onde morreria afogada.

Chegou ao sopé da montanha, levantou a cabeça e viu que era tão alta que certamente não seria fácil chegar lá cima, onde brilhavam as estrelas.
Mas não desistiu do seu caminho.

Passou uma noite, dormiu ao relento estendida no chão, passou um dia, caminhou sem comer, nem beber, e assim foi andando.

A meio desta subida, de muitas noites e muitos dias, a menina deixara de ser menina e passara a ser mulher.
Mas não mudara de ideia: chegar ao cimo da montanha, tão alta que parecia tocar no céu.

Agora havia pequenos arbustos e ela podia comer os frutos; e entre as pedras escorriam fios de água e ela podia matar a sede.

À noite, antes de adormecer, deitada no chão, olhava para o céu escuro, e ia contando as estrelas.
Tanto brilho, pensava, na minha antiga casa não havia nada disto....

Até que chegou ao cimo da montanha.
Um pico estreito como uma agulha, com pequenos degraus de gelo para poder subir.
Um gelo que era espelhado, uma luz que se entrevia.
Sem medo, pois a menina agora mulher não tinha medo de nada, foi subindo guiada por essa luz.

E já mesmo no fim dos degraus todos, mesmo no fim, lá estava a estrela maior, que ela, de sua casa, não poderia ver.

Esta é a minha estrela, esta é a minha casa, é aqui que vou morar.
Nessa noite deitou-se, feliz, sob o imenso brilho.

A menina-mulher, percorrido tanto caminho, envelhecera  sem dar por isso.
Morreu antes de adormecer.

Y.K.Centeno
Lisboa, 7 de Janeiro, 2016

Sunday, October 25, 2015

Helder Macedo, ROMANCE

É o Título:Romance
E o que leva Helder Macedo, insigne erudito, ensaísta, romancista, poeta, a celebrar nos seus 80 anos de actividade contínua e inspirada a desafiar assim os seus leitores?
Bernardim Ribeiro, de cuja obra é profundo conhecedor, e do qual  escolhe para uma das epígrafes a célebre afirmação de que " o livro há-de ser o que vai escrito nele",  da Menina e Moça, romance (ou novela de cavalaria) que quanto mais é lido mais misterioso se nos torna.
Será assim este Romance?
Transcreve, ainda de Bernardim Ribeiro, uns versos de Romance, em que a metáfora do rio para figurar a vida, no seu correr ora lento ora tumultuoso, terá sido a fonte da inspiração para o título.
Está dividido em 5 partes, que não serão capítulos no sentido mais geral do termo, mas momentos de transição na escrita, de tom  e de ritmo variáveis, com a liberdade que o criador se permite.
Pois dissera logo de início: o livro não tem de ter definição, será unicamente (e não é pouco) o que nele vai escrito.
Parte, quem sabe - todo o poeta é fingidor - de um sonho que se fixou, que num diálogo de sombras mistura a morte e o sono (é preciso dormir tudo outra vez).
A morte, o sono e o sonho, com a imagem forte de uma Menina de rosto ensanguentado levarão a um passado que só é distante no sonho, pois ao acordar parecia presente, e imobilizado na ilha onde algum enredo amoroso parecia ou poderia ter acontecido.
A escrita adquire uma forma dramatúrgica pela escolha do itálico em vez do redondo, na grafia da página, quando é a Menina que toma a palavra, interpelando o poeta.
Redescubro aqui algumas situações de outros livros e de outros poemas, como os da Viagem de Inverno, de 1994, em que um encontro se dá num carro, a porta aberta, o motor ainda a trabalhar....e na verdade é deste modo que o sonho se atravessa com o real, o passado com um presente que ainda iremos descobrir, à medida que o decurso do sonho e a sua descrição fôr permitindo.
Há um tempo de agora, num espaço contemporâneo, de estradas, rios, carros, encontros, e um tempo de outrora, arquetípico, com uma ilha e uma rocha em que uma Menina vinda do Longe (do sonho, da Alma? ) bem poderia ser a Princesa Magalona das antigas lendas de infância. Só que essa Princesa seria salva pelo cavaleiro que a amava, e esta Menina do Romance , aparecida no sonho, adquiria vida própria, apenas para desafiar, interpelar, apelar....e quem sabe morrer.
Chegamos à segunda parte de novo pela mão de Bernardim, e a voz pertence agora a um ente feminino, como se fosse uma das veladoras de Pessoa, e referisse um sonho que não era seu, não o tinha sonhado, mas numa espécie de fusão(confusão) de emoções assumira como próprio.
O importante, contudo, neste novo momento, é a narração do quotidiano dos amantes, que juntos fazem uma vida de todos os dias, até que alguma se quebra, e o silêncio, de um ou de ambos, intervém.
Bernardim Ribeiro abre sempre cada nova situação descrita, na torrente das emoções que vão sendo evocadas.
Há uma vida anterior - anterior ao sonho, e à própria vida descrita, há um outro país que deixa memória e sangue, e percorrendo o todo um amor que se perdeu.
Romance em verso livre, corrido, ritmado, sem mais?
É isso.
Podemos, sem perder o fôlego, ler em voz alta, como para uma plateia de curiosos espectadores, uma narrativa que se teatraliza muitas vezes, e permite encenação imaginária.
Ou ler em silêncio, meditando, e procurando na constante presença de um Bernardim oculto, o que nos fez a nós esquecer o seu Romance.
Helder Macedo oferece a ocasião : por meio de uma vida, que é a sua, atravessada na escrita, o súbito desejo de saber ainda mais, e reler Bernardim, suas lições de Mestre.










Tuesday, October 20, 2015

Andrés Ordoñez

O acaso de um amigo poeta ir  de viagem até ao México, fez-me procurar nas estantes um livro de poemas de Andrés Ordoñez, estudioso de Pessoa, Professor universitário durante uns anos até mudar de carreira e optar pela de diplomata.
Mas sem que isso em nada modificasse a alta qualidade da sua escrita.
Memorias de Viaje, publicado em 2003 no México, é exemplo do que digo.
Quem leu Octavio Paz, e outros, sabe que é grande a dimensão dessas literaturas longínquas, de que pouco falamos no nosso cantinho, sem as ler, sem as traduzir para português - pois nem todos saberão entender a língua castelhana.
Andrés, nascido em 1958, é já de uma nova geração que tem boa e profunda leitura assimilada de autores do ocidente europeu, do oriente dos Haiku depurados - o todo transparecendo aqui e ali num ou noutro verso, numa ou noutra imagem.
Reli o livro, que já tinha lido quando este amigo do longe mo ofereceu, ao passar por Lisboa.
Abre com uma  epígrafe de Yves Bonnefoy, cuja obra também muito admiro: "mais s'arreter mêt fin à toute illusion".
O primeiro núcleo de textos tem por título EL VIAJE. Daí a citação de Bonnefoy. Parar seria morrer, pois como pode um poeta viver sem ilusões? A começar pela ilusão da perpétua busca da palavra, que ao abrir-se no poema o ilumina a ele, e a quem o lê?
Eis o início, conciso e cósmico de dimensão ampliada:
Una cinta de luz separa el macizo de estrellas.
Mi vida es una ventana abierta.
Apercebo-me, pela leitura dos poemas seguintes, que é de Lisboa que atravessadamente se fala: Belém, navios ao longe, gaivotas-pensamento, e a cinza do dia que se afoga no mar:
La ceniza del día se ahoga en el mar.
Cita o poeta Jorge Manrique numa outra epígrafe, abrindo um poema em que rio e mar se fundem, e ele se apercebe dessa união pela janela do seu quarto "de cortinas sossegadas".
Neste conjunto habita uma grande tranquilidade feminina, um certo silêncio que nem a neblina do porto consegue perturbar.
Visita-se a cidade: Alfama, o castelo de S.Jorge, recantos de vielas de barcaças eternas.
E abre-se novo ciclo: LOS DÍAS, com epígrafe de W. Wordsworth: "and I could wish my days..."
De novo um pequeno haiku, e um verso de imagem final bem luminosa e solar:
El sol es una mandarina en labios del sueño.
Mas nem tudo se mantém, ao longo da dizer do poeta, assim magnífico e feliz.
Os dias variam, na dimensão das emoções, cadáveres dão à praia, há corações que sofrem, na vivência da cidade "A vida é um fingimento atroz".
No ciclo seguinte, da FLOR INMÓVIL, há um outro momento em que me parece encontrar Walt Whitman, quase como Pessoa, o Mestre de todos, o terá encontrado:
entre a água (eterna) e o pranto (não menos eterno).
"Entre os dedos de Março", vem o poeta com um beijo guardado desde sempre, a nomear cada qual com seu nome distinto, a água e o pranto. E na fusão sensual:
 a pensarme bebido por la hierba
jubilosamente bebido por la hierba 

É nos POEMAS DEMENTES que a reflexão sobre a vida que passa, a morte que vem, toma amplitude maior.
E não podendo, neste pequeno post, comentar o Todo do livro, ficarei para terminar com este poema que muito me comoveu, tão carregado está da substância de um tempo que se gelou no Tempo e não podemos esquecer (evocando in memoriam Paul Celan). Aqui se diz o dizer, o nomear das coisas, o abraço em segredo no regaço perfeito do silêncio, " A madeixa escura do tempo".

Pone en mis labios
el nombre de las cosas
y con el mismo amor
me nombra enredado en el secreto
de los muslos suyos y sus abrazos.
Silencio, dice...
La guedeja oscura del tiempo.

O nome das coisas, dar o nome de cada um a cada um, no espaço e no tempo de Ser que lhe foi concedido.
Experiência terrível, experiência temível, essa de nomear, ocultamente, em silêncio...
Impossível não evocar Paul Celan, que Andrés certamente leu.