Monday, June 24, 2013
Thursday, June 13, 2013
Sintomas
SINTOMAS (para um novo romance?)
Não terá certamente influência, mas sempre tomo nota: é dia 13 de Junho de 2013.
Evoca-se Fernando Pessoa, tinha de ser: nas ruas, nas festas populares, nas livrarias, nos canais (alguns) de televisão.
Muita cultura? Pouca vida sentida, pouca vida vivida.
Entro num café. Em frente ao balcão, onde vou pedir um leite com chocolate da UCAL ( para o que me havia de dar...) uma senhora de idade.
Digo uma senhora de idade, mas deve ser da minha idade. Podia ser eu.
Hesita, olhando para os bolos e os salgados, enquanto a jovem que está a atendê-la, aguarda, amável, com um sorriso. A senhora hesita porque lhe fugiu de repente da memória o nome do salgado, sim era um salgdo, que queria pedir.
Foi apontando com um dedo, a menina ajudava:
- Um rissol? Estes são de camarão, este de leitão.
-Há rissóis de leitão? inquiriu a senhora, enquanto tentava recordar o nome do salgadinho escuro, triangular, mais ao fundo da travessa.
-Há sim, há de leitão. É o que quer?
-Não, não...é em triângulo, um picante...
-Se calhar é um bolo? um palmier?
-Não, não é bolo.
A senhora apontou com o dedo o triângulo picante, escurinho, que na verdade se via mal, quase debaixo dos rissóis. É aquele.
-Ah, exclamou a jovem, aliviada, não fosse a senhora ir embora e o patrão zangar-se com ela. Isso é uma chamussa. É muito picante, tem a certeza?
-Tenho, tenho.
A senhora também respirou de alívio.
Acontecia-lhe agora com mais frequência escapar-lhe um nome, de pessoa ou de objecto, ou como ali, de comida, no preciso momento em que era preciso nomear.
Indicar seria fácil, mas nomear estava a tornar-se difícil e aborrecido.
Agradeceu: obrigada, menina.
-Pode ir para a mesa, que já levo.
A senhora agradeceu de novo e foi sentar-se.
Eu bebi o meu chocolate ali mesmo, de pé.
Já me tinha acontecido o mesmo. Precisar de um nome e ele desaparecer.
Ao computador dava erros de dislexia.
Mas havia pior: não saber que comprimidos tinha tomado, e quantos.
Esquecer de imediato a conversa que tinha tido.Não o sentido geral, mas a razão da conversa, ou o seu início, coisas assim.
Na hora de pagar, tinha uma nota de vinte euros no bolso, paguei e fiquei à espera do troco.
Olhei para a senhora. Tinha comido a sua chamussa, sem beber nada, nem um copito de vinho branco, nem sequer um café.
Estive quase quase a meter conversa com ela.
O que agora me espanta, é que no acto de escrever esta pequena nota, não é sobre a dificuldade dela que estou a pensar, mas sim em como se escreve a palavra chamussa: com os dois ss que utilizei ou com o ç de cedilha, como se costuma dizer.
Preciso de um dicionário!
Thursday, April 25, 2013
OS ANJOS SÃO TERRÍVEIS
Os Anjos São Terríveis
Os Anjos são terríveis:
de vez em quando surge um
que se destaca
e crava as suas garras de luz
no peito desprevenido
Contempla a suave curva
do dia
na ferida rasgada
Afasta-se:
viu a treva formar-se
e ao longe não ouve o grito
Os Anjos são terríveis:
não falam
não dizem nada
25 de Abril, 2013
Sunday, April 14, 2013
A Falar com o Rui Zink
Tens razão, amigo Rui:
o mundo é feito de muitos
o mundo é feito de todos
mas só governam uns poucos
e esses não são nada tolos
desenharam uma esfera
onde se escondem
dos outros
e onde ficam à espera
centrados no seu umbigo:
não é o Umbigo do Mundo
a Montanha do Saber
é um ponto pequenino
que não se consegue ver
...
enquanto ali se retiram
o mundo corre perigo!
Tens razão, amigo Rui:
o mundo é feito de muitos
o mundo é feito de todos
mas só governam uns poucos
e esses não são nada tolos
desenharam uma esfera
onde se escondem
dos outros
e onde ficam à espera
centrados no seu umbigo:
não é o Umbigo do Mundo
a Montanha do Saber
é um ponto pequenino
que não se consegue ver
...
enquanto ali se retiram
o mundo corre perigo!
Wednesday, February 20, 2013
Wednesday, February 6, 2013
Temas e Ideias IV
Continuo com a apresentação de temas e ideias, que podem ser sugestivos no acto de algum exercício de criação.
Neste caso proponho que se reflicta sobre o Mito de Prometeu.
Neste caso proponho que se reflicta sobre o Mito de Prometeu.
O MITO DE PROMETEU
O que o fogo permitiu:
afastar os animais perigosos dos espaços onde o grupo se
reunia;
iluminar as grutas e cavernas que foram os primeiros
refúgios;
aquecer esses espaços;
transitar para fora de espaços mais agrestes e erguer
outros, cabanas de madeira,
por ex. que os animais já não atacariam;
cozinhar os alimentos, o que ajudava à sua preservação;
nalguns casos, quando tal era o costume, incinerar os
cadáveres;
e mais:
forjar as armas, e quaisquer outros instrumentos de
utilidade prática;
derreter os metais e trabalhar ornamentos: colares,
pulseiras, broncos.
Dominar o fogo
era adquirir um poder que até então só se atribuía aos deuses:
nasce o mito de Prometeu que sera castigado por Zeus (deus
do relâmpago e do trovão).
Leia-se o poema de Goethe (trad. João Barrento)
Prometeu
Cobre o teu céu, ó Zeus,
De vapores de nuvens!
E ensaia, como um rapaz
Que decapita cardos,
As tuas artes em carvalhos e cumes!
A minha terra, essa
Tens de deixar-ma,
E a minha cabana,
que não construiste,
E o meu lume,
Cujo fogo
Me invejas.
….
Quando eu era criança,
Sem saber que pensar nem que fazer,
Voltava para o Sol os olhos
Perdidos, como se lá em cima houvesse
Um ouvido para o meu lamento,
Um coração como o meu
Para se compadecer dos oprimidos.
….
Eu, venerar-te, Para quê?
Aliviaste tu alguma vez
As dores dos que sofrem?
Alguma vez secaste as lágrimas
Dos angustiados?
E quem forjou em mim o Homem,
se não o Tempo todo poderoso
E o Destino eterno,
Senhores de ti e de mim?
….
Aqui estou eu, criando Homens
À minha imagem,
Uma estirpe igual a mim,
Que sofra e chore,
Goze e se alegre,
E não te respeite,
Como eu.
Neste poema Goethe, com
subtileza, descreve o caminhar do Homem que, da infância primordial ascende a
uma alta consciência de si mesmo – através do poder de emancipação que a descoberta do fogo lhe concedeu. Os deuses, ou
o dues lá do alto nada é, em nada ajuda o ser humano, e é um logro julgar que
através de oferendas a figuras inexistentes, vazias de sentido, alguma coisa do
destino humano se pode modificar.
Estamos no século XVIII, com os
Iluministas (cultores da Razão esclarecida) que fazem deste mito a sua
bandeira, o suporte da sua doutrna de emancipação.
É o século dos Enciclopedistas
franceses (Voltaire, Diderot, entre outros) e dos novos conceitos que estarão
na base da franco-maçonaria e da futura Revolução de 1789.
Este grito de revolta da alma –
que não deseja peias de espécie nenhuma, deseja ser livre e afirmar-se igual ao criador, despertará
sobretudo o entusiasmo dos Românticos do século XIX.
No antigo relato da origem do
mito Prometeu é descrito como tendo criado o primeiro homem a partir de um
bocado de argila misturado com água. Para não deixar a sua criatura
desprotegida rouba ao sol uma faúlha do seu fogo e de regresso à terra oferece
o fogo aos homens, que entretanto se tinham multiplicado.
Para se vingar, Zeus envia aos
mortais Pandora, com a sua caixa de malefícios, e quanto a Prometeu prende-o no
alto do monte Caucaso, onde durnte séculos uma águia viria comer-lhe o fígado,
que logo se refazia, causando-lhe um sofrimento sem fim. Mais tarde sera
perdoado, e é Hércules que mata a águia com uma das suas flechas.
Para a psicanálise do fogo, elemento por excelência de transformação e transmutação ( o chumbo em ouro, nos alquimistas….) ler Gaston Bachelard, A Psicanálise do Fogo, cap.VII, “o fogo idealizado”: fogo e pureza.
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