Com tempo irei colocando aqui matéria que foi objecto de estudo e discussão num cursinho que dei outrora, de Escrita Criativa.
Aos alunos competia o maior e mais difícil exercício: o de reagir, escrevendo, aos temas que foram propostos. Com total liberdade, aceitação ou recusa, mas forçando a mão menos habituada e a mente mais preguiçosa a esse esforço, a esse treino, de quem queira ser um dia escritor.
Sunday, February 3, 2013
Wednesday, December 26, 2012
Falam os Velhos
Somos os velhos.
Já fomos novos.
Falamos devagar,
já falámos depressa.
O passo é lento,
já foi mais rápido
e o pensamento existe
mas demora um pouco
mais
a expressar.
Caminhamos ao lado,
já não vamos à frente
e quando começamos
a falar
algumas palavras fogem
e temos de parar.
Vamos em busca delas,
sabemos onde estão
e qual é o caminho:
mas ao calar a meio,
porque somos os velhos,
descobrimos
que já ninguém nos ouve
e já não vale a pena
continuar
(Dezembro, 2012)
Monday, December 24, 2012
Sunday, December 9, 2012
Eurídice
EURÍDICE
Está com Orfeu:
o que fazem ali
esquecem
ou lembram?
parados
no caminho
não sabem,
não têm medo
adiante
escancara-se
a negra boca
do tempo
( a João Sousa Pinto,Dezembro, 2012)
Friday, December 7, 2012
Tão Raramente
Tão raramente
o tempo se amacia
tão raramente o sol
filtra uma nuvem
tão raramente
a noite se suspende...
(para a Isabel, Dezembro, 2012 )
o tempo se amacia
tão raramente o sol
filtra uma nuvem
tão raramente
a noite se suspende...
(para a Isabel, Dezembro, 2012 )
Friday, November 30, 2012
OUTRORA E AGORA
Dizia outrora:
morro se não escrever
a escrita é a minha liberdade.
Não digo agora:
sei
que não é verdade
morro se não escrever
a escrita é a minha liberdade.
Não digo agora:
sei
que não é verdade
Friday, November 23, 2012
Afinal quem é o Rúben?
Durante uns anos aparecia e desaparecia, a propósito das suas investigações para uma tese sobre Fernando Pessoa.
No intervalo trabalhava: era jovem, tinha vindo sozinho para Lisboa, dava aulas para ganhar a vida.
Reservado, pouco dizia do seu quotidiano, antes falava da professora espanhola que o queria doutorado mas dizia não saber nada de Pessoa. Porquê escolher Pessoa, tanto grande poeta em Espanha....sou eu que quero Pessoa, respondia o Rúben: o pensamento hermético.
A aventura durou anos e anos de estudo: difícil não era o nosso poeta, era entender bem o que significava pensamento hermético, no seu caso. Pelo meio deu-me a notícia de que se ia casar com uma jovem muçulmana. Parecia ter algum receio de que eu não recebesse bem a notícia. Pelo contrário, desejei as maiores felicidades. Falei-lhe de Ibn'Arabi. Perguntei se conhecia a novela e o romanceiro do Abencerragem, que já existia em edição moderna, da ed. Cátedra. A mais bela história de amor de todos os tempos.
Não há melhor do que amar e ser amado, e em matéria de amores Fernando Pessoa não era a melhor companhia para um jovem como ele.
Subitamente deixei de ter notícias. O Rúben não telefonava, não tocava à campaínha, não pedia mais livros.
Voltou para casa, pensei. Dos livros pouco me importei: se tinham sido úteis, tanto melhor. Teria feito a tese?
Pois foi hoje, num fim de tarde frio, cinzentão, que o Rúben reapareceu: tocou à campaínha, vi na imagem que era ele, mais magro, de cabelo rapado, como agora se usa.
Abri a porta, fingi que lhe apontava uma arma para o matar.
Ele ria.
Queria trazer-lhe os livros.
Trouxeste? Dá cá.
Não, são muitos, queria combinar um dia.
Manda pelo correio.
São muitos, fica um embrulho enorme, preferia vir cá, mas perdi o seu telefone.
Dei-lhe o meu telefone.
Perguntei: continuas em Portugal?
Sim, e acabei a tese, depois podemos falar.
Não sei, tenho andado ocupada.
Eu telefono a saber.
Tinha pressa, ia dar aulas, tinha o horário nocturno de outrora, o mesmo.
Deu-me um beijo, a barba mal cortada como agora se usa, uma barba que pica.
Disse-lhe, à porta do elevador: que modas, rapam o cabelo e deixam a barba mal aparada!
Riu e fechou a porta.
Telefona para a semana.
Um jovem bem educado, elegante, com o Fernando Pessoa às costas e às voltas. Eu tinha prevenido: começas e nunca mais acabas. Não te vês livre dele.
E cá estamos em Novembro, tarde desagradável, a chegar perto do dia em que o poeta nunca mais disse adeus... seja a mim, seja a outros...
Não sei quem é o Rúben e ainda hoje mal sei quem é o Pessoa, poeta e hermético quanto baste.
Mas sei quem sou, agora: dez anos mais velha e dez quilos mais gorda.
No intervalo trabalhava: era jovem, tinha vindo sozinho para Lisboa, dava aulas para ganhar a vida.
Reservado, pouco dizia do seu quotidiano, antes falava da professora espanhola que o queria doutorado mas dizia não saber nada de Pessoa. Porquê escolher Pessoa, tanto grande poeta em Espanha....sou eu que quero Pessoa, respondia o Rúben: o pensamento hermético.
A aventura durou anos e anos de estudo: difícil não era o nosso poeta, era entender bem o que significava pensamento hermético, no seu caso. Pelo meio deu-me a notícia de que se ia casar com uma jovem muçulmana. Parecia ter algum receio de que eu não recebesse bem a notícia. Pelo contrário, desejei as maiores felicidades. Falei-lhe de Ibn'Arabi. Perguntei se conhecia a novela e o romanceiro do Abencerragem, que já existia em edição moderna, da ed. Cátedra. A mais bela história de amor de todos os tempos.
Não há melhor do que amar e ser amado, e em matéria de amores Fernando Pessoa não era a melhor companhia para um jovem como ele.
Subitamente deixei de ter notícias. O Rúben não telefonava, não tocava à campaínha, não pedia mais livros.
Voltou para casa, pensei. Dos livros pouco me importei: se tinham sido úteis, tanto melhor. Teria feito a tese?
Pois foi hoje, num fim de tarde frio, cinzentão, que o Rúben reapareceu: tocou à campaínha, vi na imagem que era ele, mais magro, de cabelo rapado, como agora se usa.
Abri a porta, fingi que lhe apontava uma arma para o matar.
Ele ria.
Queria trazer-lhe os livros.
Trouxeste? Dá cá.
Não, são muitos, queria combinar um dia.
Manda pelo correio.
São muitos, fica um embrulho enorme, preferia vir cá, mas perdi o seu telefone.
Dei-lhe o meu telefone.
Perguntei: continuas em Portugal?
Sim, e acabei a tese, depois podemos falar.
Não sei, tenho andado ocupada.
Eu telefono a saber.
Tinha pressa, ia dar aulas, tinha o horário nocturno de outrora, o mesmo.
Deu-me um beijo, a barba mal cortada como agora se usa, uma barba que pica.
Disse-lhe, à porta do elevador: que modas, rapam o cabelo e deixam a barba mal aparada!
Riu e fechou a porta.
Telefona para a semana.
Um jovem bem educado, elegante, com o Fernando Pessoa às costas e às voltas. Eu tinha prevenido: começas e nunca mais acabas. Não te vês livre dele.
E cá estamos em Novembro, tarde desagradável, a chegar perto do dia em que o poeta nunca mais disse adeus... seja a mim, seja a outros...
Não sei quem é o Rúben e ainda hoje mal sei quem é o Pessoa, poeta e hermético quanto baste.
Mas sei quem sou, agora: dez anos mais velha e dez quilos mais gorda.
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