Monday, October 22, 2012

À Hélia Correia No Seu Sótão

Diz ela: "no meu sótão moram fadas".
Tem sorte, penso eu,
tem sótão, não está vazio, é habitado por fadas:
suponho que sejam boas,
ou não falaria delas
com tranquila gentileza.
Pois poderiam ser más,
e nem sequer fadas a sério,
Sombras vindas de um Além
que embora avise
mete medo
e desse medo
em suspenso
não poderia fugir
como não foge ninguém
desde que já visitado...

São as Sombras do silêncio
do futuro apagamento
do grande espaço vazio
do enorme assombramento...

Não há sótãos nessas casas
que só de noite despertam
ou então de madrugada...

Ela tem fadas no sótão
noutras casas não há nada...

Monday, October 8, 2012



Às Minhas Netas Cavaleiras
(Luísa, Teresa e Joana)

Vão em cavalos alados:
cavalgam nuvens e ventos
são cavalos-pensamento
de crina bem entrançada
pelo negro bem escovado
cascos lavados, ligeiros
e que atravessam o tempo….

Vão cavalgar o destino
cada  qual no seu caminho
mas tendo sempre a seu lado
os cavalos escolhidos,
os verdadeiros amigos
e de pensamento inteiro:
Belo, Bom e Verdadeiro


(durante uma aula de equitação, 2012)

Sunday, October 7, 2012


Um Anjo em Nova Yorque (para o João e a Mariana)





Um pombo côr-de-rosa
na janela

O travesti de um Anjo
no céu de Nova Yorque

Amanhece

Caem flores
como flocos de neve

Despindo as suas asas
o Anjo toca trompete







SOFIA  (para a Cristina e o Pedro)

Assim veio
trazida pelo vento 
asa leve de pássaro
em busca do seu espaço
e do seu tempo


(22 de Fevereiro, 2005)

Friday, October 5, 2012

À Martinha, nos seus 16 anos

Nasceste logo
Melodia
e menina
no teu olhar
ainda brilhavam
estrelas

Vi-te crescer
Beleza
entre belezas

Vinha de noite
a lua
para te adormecer

( 15 de Setembro, 2012)

Thursday, October 4, 2012

O Amigo

Escrevo ao Amigo.
Está longe, a carta não chegará.

Pouco importa,
ficou o gesto,
o desejo,
esse abraço:

era barco
e partia
carregado
de flores
carregado
de sonhos
ainda não
sonhados
poemas
e caminhos
ainda não cruzados

um abraço:
uma palavra nova
ainda por habitar



Saturday, September 29, 2012

O que se foi, O que se é

De criança, pequenas imagens, pequenos flashes parados, sem sequência, quase mesmo sem sentido.
Um jardim, uma rua, um pátio onde brincava com as filhinhas das vendedeiras desse pátio. Hoje é o pátio Bagatela, condomínio dito de luxo.
Também havia um menino, chamava-se Vasco, tinha uma irmã, Guidinha. Nas idas da mãe e da avó às Termas de Monchique esses irmãos iam com ela. A melhor brincadeira era subir pelos carreiros, entre as árvores, com grandes cajados pintados de vermelho.
Lembrou-se que o pai nunca passava esses dias ali, ficava em Tavira, não sabia porquê.
Foi antes de partirem para a Argentina, com a avó a chorar muito, na hora da despedida.
Não foi partir por partir, para os pais foi de verdade um exílio. Dessa estadia de vários anos não há fotografias.


Impossível reviver o passado e ainda bem.
Não seria possível continuar com a vida de todos os dias, se a memória não se perdesse.

Não somos esse passado, que parece ter sido. Não somos.
E o que somos agora não é consequência, é mesmo outra coisa, ainda que difícil de entender.
Olhando para trás o que vejo é somatório, é sucessão, mas sem fios que se entreteçam. Momentos de acaso, uns mais felizes, outros menos. A vida não é uma teia.
Só momentos, sinapses interrompidas por outras ligações a que o cérebro deu preferência.
Os porquês não sabemos.