À Martinha, nos seus 16 anos
Nasceste logo
Melodia
e menina
no teu olhar
ainda brilhavam
estrelas
Vi-te crescer
Beleza
entre belezas
Vinha de noite
a lua
para te adormecer
( 15 de Setembro, 2012)
Friday, October 5, 2012
Thursday, October 4, 2012
O Amigo
Escrevo ao Amigo.
Está longe, a carta não chegará.
Pouco importa,
ficou o gesto,
o desejo,
esse abraço:
era barco
e partia
carregado
de flores
carregado
de sonhos
ainda não
sonhados
poemas
e caminhos
ainda não cruzados
um abraço:
uma palavra nova
ainda por habitar
Está longe, a carta não chegará.
Pouco importa,
ficou o gesto,
o desejo,
esse abraço:
era barco
e partia
carregado
de flores
carregado
de sonhos
ainda não
sonhados
poemas
e caminhos
ainda não cruzados
um abraço:
uma palavra nova
ainda por habitar
Saturday, September 29, 2012
O que se foi, O que se é
De criança, pequenas imagens, pequenos flashes parados, sem sequência, quase mesmo sem sentido.
Um jardim, uma rua, um pátio onde brincava com as filhinhas das vendedeiras desse pátio. Hoje é o pátio Bagatela, condomínio dito de luxo.
Também havia um menino, chamava-se Vasco, tinha uma irmã, Guidinha. Nas idas da mãe e da avó às Termas de Monchique esses irmãos iam com ela. A melhor brincadeira era subir pelos carreiros, entre as árvores, com grandes cajados pintados de vermelho.
Lembrou-se que o pai nunca passava esses dias ali, ficava em Tavira, não sabia porquê.
Foi antes de partirem para a Argentina, com a avó a chorar muito, na hora da despedida.
Não foi partir por partir, para os pais foi de verdade um exílio. Dessa estadia de vários anos não há fotografias.
Impossível reviver o passado e ainda bem.
Não seria possível continuar com a vida de todos os dias, se a memória não se perdesse.
Não somos esse passado, que parece ter sido. Não somos.
E o que somos agora não é consequência, é mesmo outra coisa, ainda que difícil de entender.
Olhando para trás o que vejo é somatório, é sucessão, mas sem fios que se entreteçam. Momentos de acaso, uns mais felizes, outros menos. A vida não é uma teia.
Só momentos, sinapses interrompidas por outras ligações a que o cérebro deu preferência.
Os porquês não sabemos.
Um jardim, uma rua, um pátio onde brincava com as filhinhas das vendedeiras desse pátio. Hoje é o pátio Bagatela, condomínio dito de luxo.
Também havia um menino, chamava-se Vasco, tinha uma irmã, Guidinha. Nas idas da mãe e da avó às Termas de Monchique esses irmãos iam com ela. A melhor brincadeira era subir pelos carreiros, entre as árvores, com grandes cajados pintados de vermelho.
Lembrou-se que o pai nunca passava esses dias ali, ficava em Tavira, não sabia porquê.
Foi antes de partirem para a Argentina, com a avó a chorar muito, na hora da despedida.
Não foi partir por partir, para os pais foi de verdade um exílio. Dessa estadia de vários anos não há fotografias.
Impossível reviver o passado e ainda bem.
Não seria possível continuar com a vida de todos os dias, se a memória não se perdesse.
Não somos esse passado, que parece ter sido. Não somos.
E o que somos agora não é consequência, é mesmo outra coisa, ainda que difícil de entender.
Olhando para trás o que vejo é somatório, é sucessão, mas sem fios que se entreteçam. Momentos de acaso, uns mais felizes, outros menos. A vida não é uma teia.
Só momentos, sinapses interrompidas por outras ligações a que o cérebro deu preferência.
Os porquês não sabemos.
Tuesday, September 18, 2012
Começar ?
Não será um diário, muito menos uma autobiografia.
Serão talvez notas, pedaços, fragmentos, memórias que ficam pelo caminho.
Autobiografias há muitas, uma a mais ou a menos não faz diferença.
Mas caminhos e curvas de caminhos, talvez possam ter algum interesse: não para todos, mas para alguns...
Talvez então eu me disponha a começar. Veremos.
Havia ali aquela mulher. Abriu uma gaveta, que estava cheia de pó, não era limpa há anos.
Tirou-a da mesa de cabeceira, e limpou com cuidado o fundo, e a seguir, peça por peça, os objectos que se encontravam lá dentro: armação de óculos antigos, envelopes com análises variadas, fotos, muitas fotos, colarzinhos partidos, brinquedos de papier maché de quando os filhos eram pequenos e os traziam da escola.
Pôs tudo em cima da cama e ficou parada a olhar: guardava, deitava fora, escolhia as fotos para um álbum ou para algum caixilho mais bonito...
Não fez nada. Guardou tudo outra vez na gaveta. As suas fotos antigas já não eram ela, eram outra pessoa, que ela já nem se lembrava de ter sido.
Não fez nada.
Um dia alguém abriria a gaveta e ficaria como ela, a olhar.
Serão talvez notas, pedaços, fragmentos, memórias que ficam pelo caminho.
Autobiografias há muitas, uma a mais ou a menos não faz diferença.
Mas caminhos e curvas de caminhos, talvez possam ter algum interesse: não para todos, mas para alguns...
Talvez então eu me disponha a começar. Veremos.
Havia ali aquela mulher. Abriu uma gaveta, que estava cheia de pó, não era limpa há anos.
Tirou-a da mesa de cabeceira, e limpou com cuidado o fundo, e a seguir, peça por peça, os objectos que se encontravam lá dentro: armação de óculos antigos, envelopes com análises variadas, fotos, muitas fotos, colarzinhos partidos, brinquedos de papier maché de quando os filhos eram pequenos e os traziam da escola.
Pôs tudo em cima da cama e ficou parada a olhar: guardava, deitava fora, escolhia as fotos para um álbum ou para algum caixilho mais bonito...
Não fez nada. Guardou tudo outra vez na gaveta. As suas fotos antigas já não eram ela, eram outra pessoa, que ela já nem se lembrava de ter sido.
Não fez nada.
Um dia alguém abriria a gaveta e ficaria como ela, a olhar.
Tuesday, September 4, 2012
Memórias
Uma pessoa amiga perguntou-me: não queres escrever as tuas memórias?
Não, não acho que tenham interesse.
E porquê?
Porque Memórias só interessam as dos grandes, que mudaram o mundo; eu não mudei o mundo, só me mudei a mim mesma.
Não, não acho que tenham interesse.
E porquê?
Porque Memórias só interessam as dos grandes, que mudaram o mundo; eu não mudei o mundo, só me mudei a mim mesma.
Saturday, August 18, 2012
Os Princípios
Os meus primeiros poemas, de que fiz uma escolha para publicar em 1961, têm muito do diálogo que se estabelecia entre mim e os poetas que lia, os pintores que admirava e que eram, à data, sobretudo Jacques Prévert, Henri Michaux, Boris Vian, e Marc Chagall como pintor de quase iniciação.
Nos quadros de Chagall acedia-se a um imaginário tão lírico, tão livre, tão intenso, que de repente eu sentia nascer em mim essa mesma liberdade. E escrevia, correspondendo a esse movimento de alma.
Ficou-me até hoje o prazer da relação com outras artes:
da palavra, da imagem, dos belos sons da música (clássica, jazz, bossa-nova).
O diálogo é permanente, embora, como é óbvio, eu não escreva agora como escrevia outrora.
Outrora eu vinha de Paris, minha segunda cidade, cheia de energia e de "luz" criadora, para desembocar numa Lisboa tristonha, burguesa, fechada a tudo o que lhe fosse ainda (in)diferente. Os meus poemas destoavam.
Mas descubro agora, através de amigos muito mais jovens, que há novos leitores a quem os poemas agradam.
Coloquei dois desses poemas no blog de literatura e arte; mas achei que neste espaço, onde discuto um pouco o que é a criação na escrita, poderia explicar de que modo me surgiam ideias e imagens, que não sendo de modo nenhum copiadas iam beber à mesma fonte, da alegria e da liberdade parisiense (Chagall também vivia em Paris) enquanto em Portugal a ditadura demorava a ter o seu poente.
O CAFÉ
Sentadas nas mesas do café
as pessoas olhavam sem ver bem
e no olhar semi-adormecido
iam passando em série
os ódios pequeninos, quotidianos
como um enterro de terceira classe
lento e grave
seguido por dois cães de luto
e um chapéu funerário sem cabeça
(in Opus 1, ed.Ática, 1961)
Repare-se no contraste: de Paris vinha a emoção do amor, com Chagall, com Prévert; mas de Lisboa só a melancolia dos cafés...
Repare-se no contraste: de Paris vinha a emoção do amor, com Chagall, com Prévert; mas de Lisboa só a melancolia dos cafés...
Wednesday, August 15, 2012
Henri Michaux
A biografia de Henri Michaux, publicada por Robert Bréchon, tem como sub-título "la poésie comme destin": a poesia como destino.Aqui está uma afirmação que nos faz reflectir: o que é a poesia; o que é o destino; e o que é a poesia como destino.
Podemos simplesmente dizer que se entenda destino como objectivo, como propósito final de um esforço, neste caso de produção poética.
Mas é claro que não é isso que Bréchon pretende; o que ele quer dizer é que a vida de Michaux se definiu pela poesia e para a poesia, transformando-se na substância mesma da energia vital que o suportava, na rotina dos dias.
São poucos, provavelmente, na história da literatura, aqueles de quem se pode dizer o mesmo. Que tiveram a poesia como destino. E os que conhecemos morreram talvez cedo, pobres e sós.
Falo de Michaux, poderia falar de Pessoa?
Michaux escreve, num dos seus primeiros textos, já carregados de nostalgia poética:
Il souffle un vent terrible.
Ce n'est qu'un petit trou dans ma potrine,
Mais il y souffle un vent terrible.
Sopra um vento terrível.
É só um buraquinho no meu peito
Mas sopra lá dentro um vento terrível.
Segue o poema (refere-se a Quito, do livro Ecuador) descrevendo a urgência premente de uma grande cidade, com os seus males ( o ódio, a inveja) e todo o desejo que comporta: um desejo como um buraco no peito, por onde sopra o vento, um vento que é Sopro criador, ainda que seja terrível.
Quando desenvolve este poema, dá-lhe um título que o define, a ele e ao poema...
JE SUIS NÉ TROUÉ
....
Ah, comme on est mal dans ma peau!
....
Et c'est ma vie, ma vie par le vide.
S'il disparaît, ce vide, je me cherche, je m'affole et c'est encore pire.
Je me suis bâti sur une colonne absente
.....
etc.
Nasci Furado....
Ah como me sinto mal comigo!
E trata-se da minha vida, a minha vida através do vazio
Quando desaparece, este vazio, procuro-me, assusto-me, e é ainda pior.
Ergui-me sobre uma coluna ausente
...
Fernando Pessoa haveria de ter gostado de ler Michaux, são como duas almas não digo gémeas, mas em espelho. A experiência que Michaux teve da África equatorial e tanto o repeliu, teve Pessoa numa infância que não sabemos dizer se foi completamente feliz. Mas que marcou a descoberta e exercício da língua (língua outra, o inglês mas outras, as nativas, ainda mais diferentes) e o que a língua faz ao pensamento que deseja exprimir-se...
A obra de Michaux é levada, na poesia como na pintura, por esse vento que sopra no seu peito, e o empurra, fazendo com que mude de esfera, flutue no seu vazio, que ele definiu como "algodão e silêncio", um "silêncio de estrelas", que deixa tudo em suspenso.
O buraco no peito não tem forma, escreve ele adiante no poema, embora seja tão profundo...
Atropelam-se em nós outras imagens: o Ungrund dos místicos alemães (Boehme), ou o Sem-fundo de Paul Celan, o poeta recém-chegado à poesia, também ele, como destino (morre suicidando-se no Sena, em 1970):
Projectado
na via de esmeralda
buraco de larvas, buraco de estrelas, com todas
as quilhas
procuro-te,
Sem-fundo.
(trad. Y.Centeno, Literatura e Alquimia, 1987)
Projectado
na via de esmeralda
buraco de larvas, buraco de estrelas, com todas
as quilhas
procuro-te,
Sem-fundo.
(trad. Y.Centeno, Literatura e Alquimia, 1987)
Michaux, Celan: que confluência de abismos!
Se é certo que em cada poeta e para cada poeta a palavra certa é irrepetível, só a ele pertence, só a ele foi dada(como em revelação, fruto do Sopro interior que leva, eleva, transforma) não é menos certo que todos bebem de uma fonte comum, se afundam numa onda que os lava e se erguem na glória de um destino que foi, como diz Bréchon, de entrega à Poesia.
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