Tuesday, September 18, 2012

Começar ?

Não será um diário, muito menos uma autobiografia.
Serão talvez notas, pedaços, fragmentos, memórias que ficam pelo caminho.
Autobiografias há muitas, uma a mais ou a menos não faz diferença.
Mas caminhos e curvas de caminhos, talvez possam ter algum interesse: não para todos, mas para alguns...
Talvez então eu me disponha a começar. Veremos.

Havia ali aquela mulher. Abriu uma gaveta, que estava cheia de pó, não era limpa há anos.
Tirou-a da mesa de cabeceira, e limpou com cuidado o fundo, e a seguir, peça por peça, os objectos que se encontravam lá dentro: armação de óculos antigos, envelopes com análises variadas, fotos, muitas fotos, colarzinhos partidos, brinquedos de papier maché de quando os filhos eram pequenos e os traziam da escola.
Pôs tudo em cima da cama e ficou parada a olhar: guardava, deitava fora, escolhia as fotos para um álbum ou para algum caixilho mais bonito...
Não fez nada. Guardou tudo outra vez na gaveta. As suas fotos antigas já não eram ela, eram outra pessoa, que ela já nem se lembrava de ter sido.
Não fez nada.
Um dia alguém abriria a gaveta e ficaria como ela, a olhar.

Tuesday, September 4, 2012

Memórias

Uma pessoa amiga perguntou-me: não queres escrever as tuas memórias?
Não, não acho que tenham interesse.
E porquê?
Porque Memórias só interessam as dos grandes, que mudaram o mundo; eu não mudei o mundo, só me mudei a mim mesma.

Saturday, August 18, 2012

Os Princípios

Os meus primeiros poemas, de que fiz uma escolha para publicar em 1961, têm muito do diálogo que se estabelecia entre mim e os poetas que lia, os pintores que admirava e que eram, à data, sobretudo Jacques Prévert, Henri Michaux, Boris Vian, e Marc Chagall como pintor de quase iniciação.
Nos quadros de Chagall acedia-se a um imaginário tão lírico, tão livre, tão intenso, que de repente eu sentia nascer em mim essa mesma liberdade. E escrevia, correspondendo a esse movimento de alma.
Ficou-me até hoje o prazer da relação com outras artes: 
da palavra, da imagem, dos belos sons da música (clássica, jazz, bossa-nova).
O diálogo é permanente, embora, como é óbvio, eu não escreva agora como escrevia outrora.
Outrora eu vinha de Paris, minha segunda cidade, cheia de energia e de "luz" criadora, para desembocar numa Lisboa tristonha, burguesa, fechada a tudo o que lhe fosse ainda (in)diferente. Os meus poemas destoavam. 
Mas descubro agora, através de  amigos muito mais jovens, que há novos leitores a quem os poemas agradam.
Coloquei dois desses poemas no blog de literatura e arte; mas achei que neste espaço, onde discuto um pouco o que é a criação  na escrita, poderia explicar de que modo me surgiam ideias e imagens, que não sendo de modo nenhum copiadas iam beber à mesma fonte, da alegria e da liberdade parisiense (Chagall também vivia em Paris) enquanto em Portugal a ditadura demorava a ter o seu poente.

O CAFÉ
Sentadas nas mesas do café
as pessoas olhavam sem ver bem
e no olhar semi-adormecido
iam passando em série
os ódios pequeninos, quotidianos
como um enterro de terceira classe
lento e grave
seguido por dois cães de luto
e um chapéu funerário sem cabeça
(in Opus 1, ed.Ática, 1961)

Repare-se no contraste: de Paris vinha a emoção do amor, com Chagall, com Prévert; mas de Lisboa só a melancolia dos cafés...

Wednesday, August 15, 2012

Henri Michaux

A biografia de Henri Michaux, publicada por Robert Bréchon, tem como sub-título "la poésie comme destin": a poesia como destino.Aqui está uma afirmação que nos faz reflectir: o que é a poesia; o que é o destino; e o que é a poesia como destino.
Podemos simplesmente dizer que se entenda destino como objectivo, como propósito final de um esforço, neste caso de produção poética.
Mas é claro que não é isso que Bréchon pretende; o que ele quer dizer é que a vida de Michaux se definiu pela poesia e para a poesia, transformando-se na substância mesma da energia vital que o suportava, na rotina dos dias.
São poucos, provavelmente, na história da literatura, aqueles de quem se pode dizer o mesmo. Que tiveram a poesia como destino. E os que conhecemos morreram talvez cedo, pobres e sós.
Falo de Michaux, poderia falar de Pessoa?
Michaux escreve, num dos seus primeiros textos, já carregados de nostalgia poética:
Il souffle un vent terrible.
Ce n'est qu'un petit trou dans ma potrine,
Mais il y souffle un vent terrible.

Sopra um vento terrível.
É só um buraquinho no meu peito
Mas sopra lá dentro um vento terrível.

Segue o poema (refere-se a Quito, do livro Ecuador) descrevendo a urgência premente de uma grande cidade, com os seus males ( o ódio, a inveja) e todo o desejo que comporta: um desejo como um buraco no peito, por onde sopra o vento, um vento que é Sopro criador, ainda que seja terrível. 
Quando desenvolve este poema, dá-lhe um título que o define, a ele e ao poema...
JE SUIS NÉ TROUÉ 
....
Ah, comme on est mal dans ma peau!
....
Et c'est ma vie, ma vie par le vide.
S'il disparaît, ce vide, je me cherche, je m'affole et c'est encore pire.
Je me suis bâti sur une colonne absente
.....
etc.

Nasci Furado....
Ah como me sinto mal comigo!
E trata-se da minha vida, a minha vida através do vazio
Quando desaparece, este vazio, procuro-me, assusto-me, e é ainda pior.
Ergui-me sobre uma coluna ausente
...
Fernando Pessoa haveria de ter gostado de ler Michaux, são como duas almas não digo gémeas, mas em espelho. A experiência que Michaux teve da África equatorial e tanto o repeliu, teve Pessoa numa infância que não sabemos dizer se foi completamente feliz. Mas que marcou a descoberta e exercício da língua (língua outra, o inglês mas outras, as nativas, ainda mais diferentes) e o que a língua faz ao pensamento que deseja exprimir-se...
A obra de Michaux é levada, na poesia como na pintura,  por esse vento que sopra no seu peito, e o empurra, fazendo com que mude de esfera, flutue no seu vazio, que ele definiu como "algodão e silêncio", um "silêncio de estrelas", que deixa tudo em suspenso. 
O buraco no peito não tem forma, escreve ele adiante no poema, embora seja tão profundo...
Atropelam-se em nós outras imagens: o Ungrund dos místicos alemães (Boehme), ou o Sem-fundo de Paul Celan, o poeta recém-chegado à poesia, também ele, como destino (morre suicidando-se no Sena, em 1970):
Projectado
na via de esmeralda
buraco de larvas, buraco de estrelas, com todas
as quilhas
procuro-te,
Sem-fundo. 
(trad. Y.Centeno, Literatura e Alquimia, 1987)

Michaux, Celan: que confluência de abismos!
Se é certo que em cada poeta e para cada poeta a palavra certa é irrepetível, só a ele pertence, só a ele foi dada(como em revelação, fruto do Sopro interior que leva, eleva, transforma) não é menos certo que todos bebem de uma fonte comum, se afundam numa onda que os lava e se erguem na glória de um destino que foi, como diz Bréchon, de entrega à Poesia.




Monday, August 13, 2012

Começar...

Abri há anos este blog para um grupo de alunos que sendo ilustradores queriam escrever os seus próprios textos.
Um deles perguntava : há uma idade que seja a melhor para começar?
Não, claro que não.
O impulso de escrever surge, como qualquer impulso, de forma algo imprevisível. É uma voz "outra" que deseja falar e toma conta de nós, levando a que se escreva, como na pintura levará a que se pinte, ou se desenhe, ou na música a que se aponte o acorde, enfim, se dê resposta a algo que se tornou premente.
Uns falam de "inspiração", outros de "projecção do inconsciente", como acontece nos sonhos, que os Surrealistas seguidores de André Breton e do seu Manifesto de 1924, abordam como fonte primeira de toda a inspiração e manifestação criadora, ao mais alto grau.
O inconsciente teria pois uma linguagem própria,uma voz nascida das trevas, da escuridão (por ser desconhecida) da nossa psique, contudo riquíssima em imagens, símbolos, arquétipos universais (sendo que este já é um termo herdado de Jung, discípulo de Freud).
Lidamos pois, com a escrita, como nas outras artes, com um imaginário simbólico e arquetípico, que surge devido a algum impulso oculto, primitivo, ou mesmo primordial - se se puder a-posteriori explicar por determinadas memórias e contextos religiosos e culturais, como o da Grande-Mãe, por exemplo.
Não respondi à pergunta da idade:
a idade não importa, o desejo, a alegria, a entrega de escrever surge em qualquer idade. A questão é antes como depois continuar.
Há casos de quem tenha começado muito cedo, aos onze, doze anos, com as primeiras experiências de verso ou de prosa; claro, não significa que aí se tenha revelado a obra-prima, apenas se revelou o desejo de escrever.
Rilke, um dos grandes poetas da literatura universal, escreve, dando conselhos a um jovem poeta que não escrevesse (seria perda de tempo) se para ele a escrita não fosse sentida como uma questão de vida ou de morte. Só assim valeria a pena, começar....e continuar.
Diz-se que o primeiro verso é dado (alusão ao impulso inspirado) mas tudo o mais é "transpirado"....isto é, o trabalho de "sublimar" o que apareceu como se fosse fácil, e a continuação do que se pretenda dizer, exigem já outra capacidade de autocrítica, de distanciamento em relação à obra em curso, e na verdade muita cultura e literatura absorvida e interiorizada.
Não se iluda quem deseja escrever: leia muito, leia tudo. A leitura, o convívio habitual com os maiores do que nós, educam-nos o raciocínio, formam e depuram o estilo, ajudam a entender o que é novo (e por isso com  o nosso contributo ampliamos horizontes) ou o que, tendo já sido feito não deve ser repetido nem apresentado como se fosse novo.
A boa escrita passa também por essa qualidade : a honestidade intelectual!
Pediram um exemplo meu: na realidade publiquei o meu primeiro livro de poemas em 1961, aos vinte e um anos, mas já os tinha escrito uns anos antes, alguns aos dezassete, outros aos dezoito ( e outros até antes, mas nunca publiquei).
Escolho este exemplo do quadro de Chagall, Les Mariés de la Tour Eiffel: a bela imagem do par flutuando feliz como acontece em tanta da pintura de Chagall despertou em mim, na altura, logo um primeiro verso e a seguir o poema inteiro, qua anotei. Bem diferente da sugestão do quadro...e bem de acordo com o que eu sentia, quando jovem, sobre o modo como se desenrolavam as relações amorosas ( e sociais)...Ora leiam:
Pedido de Casamento
Venho pedir a mão de sua filha
disse o jovem tímido olhando para o chão
Porquê a mão?
Porquê ? porque é costume
é a tradição
o meu avô pediu a mão de minha avó
o meu pai pediu a mão de minha mãe
portanto eu peço a mão de sua filha
é lógico é humano é natural
é como deve ser
é convencional...
Só não é original
mas seja disse o pai depois de meditar
pode levá-la mas trate-a com cuidado
era de estimação a mão
como pode calcular...
O jovem abriu e fechou a boca repetidas vezes
admirado
enquanto o velho pai que tinha ideias suas
foi buscar a faca da cozinha
e trouxe para a sala a mão da filha
sòzinha
 (in OPUS 1, 1961)

Deixo à imaginação dos leitores o entendimento do que escrevi; apenas digo o que eram as minhas leituras nessa época:
 Os surrealistas, e
 Jacques Prévert, que devorava, literalmente!
E já agora reparem que da noiva só se vê uma mãozinha....estavam mesmo a pedir o poema!

Sunday, May 6, 2012


O POETA ABORRECIDO

E de repente o vazio
o ennui
o aborrecimento
sem causa nem efeito
as horas não obedecem
ao ponteiro do relógio 
e este, 
falhado o seu destino,
entra em desgoverno
e mata-se
no fundo da gaveta

O homem sentado a ler
não sabe nada das horas
nem do relógio
e ainda menos da gaveta
e do grande desgoverno
se lhe falassem disso 
diria que era treta
ele já se perdeu do tempo
do presente e do passado
o entretém são as letras
elas são o seu relógio
são as horas 
e o ponteiro
são o último dos últimos
e para sempre
o primeiro





Saturday, November 12, 2011

Dias a Fio no Teatro São Luiz

Esta peça de teatro de Luísa Costa Gomes, Dias a Fio, estará no Teatro São Luiz até ao dia 20 de Novembro.
Enredo simples, encenação descomplicada e engenhosa, de Ana Tamen, como já acontecera há anos com outra peça da mesma autora, Nunca Nada de Ninguém.
Preparem-se para rir, com a verve dos diálogos e das situações descritas.
Depois, pensando melhor, talvez chorar um pouco.
A peça é um Fresco da sociedade actual dominada pela voracidade do ganho, mesmo quando já não há nada para ganhar, do lucro imediato sobre a imediata necessidade de alguém - seja um arrivista ou um destituído, mas que precisa de ter e de que "os que sabem" (os "empreendedores") se aproveitam: como por exemplo na venda de um poço com soalho flutuante, ou de uma garagem com estacionamento em frente.
De exemplo em exemplo,de ideia engenhosa em ideia engenhosa, acabará uma das protagonistas assassinada pelo marido da outra, e ao aparecer em fantasma à amiga e competidora de outrora leva-a a exclamar, com entusiasmo: ah. mas abre-se aí um enorme espaço de oportunidades....pensa nisso.
Diverti-me imenso e quem me conhece sabe que sou fã da obra de Luísa Costa Gomes, desde os seus primeiros Contos de Sobressalto, e até hoje.
Mas qual a razão de trazer aqui esta proposta de ida ao teatro que acabará por certo em proposta de leitura, quando sair o livro?
Uma razão muito simples e que se prende com o exercício da Escrita:
O bom escritor não vive em torre de marfim, alheado do mundo; o bom escritor capta o real na sociedade que o rodeia, com a qual vive e convive diariamente.
Quantos anúncios de compra e venda de casa não terão levado a autora à crítica transformada em riso desta peça? Quantas situações de famílias disfuncionais ao jantar a três, de pai, mãe e filho numa cena que evoca Ionesco no seu melhor? Quantos diálogos ouvidos ao acaso numa esplanada?
Por outras palavras: escrever é escrever o mundo: seja o mais íntimo, da nossa alma, ou o mais exposto da sociedade em redor.
Respondo assim a alguns dos meus alunos que me perguntavam: escrever como?não sei sobre o quê!
O quê, o como, estão todos os dias - dias a fio - à nossa disposição.
Ah, é preciso olhar, é preciso não ser indiferente, é preciso reagir, aprender a reagir e depois o resto acontece com o treino de mão.
Ler ajuda, claro. Ler sempre, ler muito.
E ver: neste caso ver pelos olhos atentos de Luísa!
Nesta peça - além do riso pantagruélico - há um olhar que não teme, um olhar que não se desvia.
E na exposição de vida que é um palco, com todos os elementos que o habitam (aqui entra a parte do excelente desempenho dos actores e do carinho de toda a equipa de produção) encontramos finalmente as bocas que não calam!