Saturday, November 12, 2011

Dias a Fio no Teatro São Luiz

Esta peça de teatro de Luísa Costa Gomes, Dias a Fio, estará no Teatro São Luiz até ao dia 20 de Novembro.
Enredo simples, encenação descomplicada e engenhosa, de Ana Tamen, como já acontecera há anos com outra peça da mesma autora, Nunca Nada de Ninguém.
Preparem-se para rir, com a verve dos diálogos e das situações descritas.
Depois, pensando melhor, talvez chorar um pouco.
A peça é um Fresco da sociedade actual dominada pela voracidade do ganho, mesmo quando já não há nada para ganhar, do lucro imediato sobre a imediata necessidade de alguém - seja um arrivista ou um destituído, mas que precisa de ter e de que "os que sabem" (os "empreendedores") se aproveitam: como por exemplo na venda de um poço com soalho flutuante, ou de uma garagem com estacionamento em frente.
De exemplo em exemplo,de ideia engenhosa em ideia engenhosa, acabará uma das protagonistas assassinada pelo marido da outra, e ao aparecer em fantasma à amiga e competidora de outrora leva-a a exclamar, com entusiasmo: ah. mas abre-se aí um enorme espaço de oportunidades....pensa nisso.
Diverti-me imenso e quem me conhece sabe que sou fã da obra de Luísa Costa Gomes, desde os seus primeiros Contos de Sobressalto, e até hoje.
Mas qual a razão de trazer aqui esta proposta de ida ao teatro que acabará por certo em proposta de leitura, quando sair o livro?
Uma razão muito simples e que se prende com o exercício da Escrita:
O bom escritor não vive em torre de marfim, alheado do mundo; o bom escritor capta o real na sociedade que o rodeia, com a qual vive e convive diariamente.
Quantos anúncios de compra e venda de casa não terão levado a autora à crítica transformada em riso desta peça? Quantas situações de famílias disfuncionais ao jantar a três, de pai, mãe e filho numa cena que evoca Ionesco no seu melhor? Quantos diálogos ouvidos ao acaso numa esplanada?
Por outras palavras: escrever é escrever o mundo: seja o mais íntimo, da nossa alma, ou o mais exposto da sociedade em redor.
Respondo assim a alguns dos meus alunos que me perguntavam: escrever como?não sei sobre o quê!
O quê, o como, estão todos os dias - dias a fio - à nossa disposição.
Ah, é preciso olhar, é preciso não ser indiferente, é preciso reagir, aprender a reagir e depois o resto acontece com o treino de mão.
Ler ajuda, claro. Ler sempre, ler muito.
E ver: neste caso ver pelos olhos atentos de Luísa!
Nesta peça - além do riso pantagruélico - há um olhar que não teme, um olhar que não se desvia.
E na exposição de vida que é um palco, com todos os elementos que o habitam (aqui entra a parte do excelente desempenho dos actores e do carinho de toda a equipa de produção) encontramos finalmente as bocas que não calam!

Tuesday, October 18, 2011

Ler Poesia


A poesia tem algo de especial e que a diferencia da narrativa, outra forma não menos interessante de criação literária.
Podemos ler só um poema, ou só um verso que nos atraia e ficando nele ampliamos a nossa relação com o mistério que toda a obra contém.
Da narrativa esperamos (exigimos) que tenha um fio que se desenrole e a cada momento (capítulo) acrescente mais matéria à que já foi exposta, conduzindo( ou não, os modernistas trouxeram a obra aberta) a um final que conclua o enredo inicialmente aberto e foi criando determinadas expectativas ao leitor.
Com o poema tudo é (aparentemente) mais fácil: abrimos o livro ao acaso, começamos onde calhe ter ficado a página, e lemos:
alguma poesia é mais quotidiana, mais directa, mais narrativa;
outra será mais condensada, mais hermética, obrigando a uma releitura ou uma reflexão mais demorada;
alguma viverá sobretudo do ritmo,
ou da voz que rima e canta,
outra usará o verso como se fosse prosa,
etc.
Para cada estilo, haverá um leitor "ideal".
E para cada leitor um autor, um poeta, um poema ou mesmo só um verso que o marque para sempre.
Recordo Sophia de Mello Breyner e um dos poemas do livro CORAL que li quando jovem e nunca mais esqueci:

Ia e vinha
e a cada coisa
perguntava
que nome tinha

Mais tarde, ao ler as Aventuras de Alice, este poema que nunca mais esqueci remeteu o sentido da interrogação para o decifrar das questões que eram colocadas pela impertinente lagarta a essa menina ora em crescimento ora em diminuição impossível.
Aí estava o segredo, no desejo de saber, algo que só perguntando, perguntando sempre pode alcançar resposta, se existir. Pois nem sempre há resposta...
Fiquemos com esta ideia de que poesia é interrogação.
Pensando em Rilke, outro grande poeta que também me marcou quando era jovem, evoco o primeiro verso de uma das Elegias de Duíno :

Quem se eu gritasse me ouviria entre as hierarquias dos Anjos...

Tão forte o seu mistério, tão intensa a interrogação, que quando precisei de um título para o meu primeiro romance foi neste verso que me inspirei.

Falamos de poesia "popular", de poesia "culta", de poesia "concreta", de poesia "experimental" - mas pouco importa.
O acto de criar, neste caso, o poema, nasce de uma pulsão que é funda, ou não é coisa nenhuma; nasce de um sentimento, mais do que de uma intenção ou de uma ideia-feita.
Mas claro, se o poeta é culto, é muito natural que nos seus poemas entre em diálogo com o que leu e nesse diálogo dê uma outra voz à matéria poética "integrada".
Nada nasce do nada e a voz poética tem também a sua raiz, a terra que a alimenta.

Vem isto a propósito do último livro de Ana Luísa Amaral, VOZES, (Dom Quixote, 2011) cuja leitura me entusiasmou e só posso recomendar.
O leitor encontrará nesta obra o coloquial e o erudito atravessados por um fino humor que não se compadece de lágrimas furtivas ainda que exprima espanto, ou dôr, ou algum sofrimento, como o de quem conhece a solidão.
As Vozes de Luísa são muitas e todas nos desafiam.
Poderá ser na cama, na praia, na cozinha, num qualquer banco de jardim: mas ali estão e estão (como Deus está na Mandorla de Celan) porque é de sempre a voz da poesia, é de sempre o seu eco, vindo do Antigamente ou do Agora e Aqui.
Nos poemas encontro Rilke, mas encontro Bocage, ou o trovar dos Cavaleiros, ou os mitos de amor como o de Pedro e Inês.
Mas encontro acima de tudo, e com que indizível prazer, uma escrita despida, moderníssima de linguagem, e nas entrelinhas a subtil mas permanente discussão do peso da palavra ( o sentido e o estilo).
São sílabas? São versos que cantam e encantam, interrogações como as de sempre, de Sophia ou Alice, num nomear que é dela, Ana Luísa, e não poderia ser de mais ninguém: Ana Luísa rompe e interrompe, a palavra poética tornou-se o seu domínio, ela domina o verso e o seu avesso!


Saturday, October 15, 2011

Almas, com dedicatória especial ao António

A reacção de um amigo escritor ao pequeno poema que lhe enviei, Almas, e a seguir transcrevo, levou-me a várias considerações sobre o acto de escrever, a mão que escreve, a origem do impulso que dirige o tema, as ideias, as imagens...Dizia o meu amigo que o poema transcende a esfera do seu entendimento e que ele é mais da prosa do que da poesia. Claro que estava a brincar.
Eis o poema:
Para que alma voltamos
na hora de partir:
há uma alma que chora
há uma alma que ri...

Na altura pensei em recordar ao António (é o nome do amigo) que já Platão falava nos cavalos da alma, que já os antigos hindus falavam da transmigração das almas ( o que supõe a existência de suas várias transformações) que o Livro Tibetano dos Mortos ( que foi durante muitos anos para mim um livro de cabeceira) indica logo nas primeiras páginas de que modo a alma deve buscar a luz condutora, para evitar uma reencarnação penosa - enfim, que há todo um saber arcaico, um imaginário poderoso que de repente pode surgir num conjunto de versos que ocorrem e tomam conta da nossa própria escrita, sem que saibamos logo o porquê e o como.
É essa obscura memória do que foi lido e guardado que pode, nalguns casos, como este, suscitar de repente um texto só aparentemente misterioso.
Procurando exemplos mais recentes, descubro em T.S.Eliot e Paul Celan matéria que seria ideal para epígrafe, antecedendo o meu poema, tornando-o, quem sabe, um pouco mais claro:
T.S.Eliot
"Surge da mão de Deus a alma simples..." (Animula)
Paul Celan
" Coloca então as folhas junto às almas..." (A Posse dos Sonhos)

O que quero dizer é simples: que por vezes é o comentário ou a interrogação de um outro, neste caso o meu amigo, que nos obriga ao esforço de perceber de onde veio o impulso, que razões (neste caso leituras, reflexões bem antigas) estão afinal na origem de um pequeno alinhar de versos que de repente nos surgem e passamos ao papel.

Saturday, August 13, 2011

Friday, August 5, 2011

Mais Poesia

Para os amantes de poesia, e que desejam o risco de escrever, que é como um risco de vida, para quem escreve, aqui deixo um poema que deve ser lido e relido, em voz alta, em voz baixa, com amor:
Sintonia para pressa e presságio
de Paulo Leminski

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.


Nos últimos três versos temos a chave do poema e da criação poética: O Verbo, o deus da Inspiração que faz do Verbo um Dizer poético, com a luz que se acende, não na casa, não na sala -mas na alma.
É da alma que fala a poesia!

Tuesday, June 28, 2011

Pensando, Escrevendo, Pensando...

Porquê

Antigamente era frequente ouvir uma criança perguntar porquê repetidas vezes, ainda que se desse uma resposta; à resposta dada era exigido outro porquê, outra resposta e assim sucessivamente, para cansaço do adulto que ia respondendo, até que por fim já farto dizia porque sim e acabava a litania de perguntas e respostas.
Hoje a criança não se dirige ao adulto para perguntar, dirige-se aos botões para logo, sem perguntar, obter alguma resposta, mais rápida e mais interessante; faz isso com um ano de idade ou pouco mais, vejo-o por um dos meus netos: todos os botões, dos comandos de televisão aos dos jogos da psp, do iphone ou do computador. As respostas são dadas pelas imagens, e o maravilhamento é total. Na cozinha, onde estão proibidos de entrar, é o fogão ou o micro-ondas que desperta a curiosidade.
Mas a interrogação, o porquê, lá permanece à mesma.
Falei de crianças, mas poderia (deveria) falar de adultos. Da nossa capacidade de interrogação, de manter activos os comandos interiores dos porquês: da nossa vida, da vida que nos rodeia. No nosso caso talvez o excesso de respostas (ainda que falsas) aliado à velocidade com que são dadas, não permitindo uma elaboração mais integrada, prejudica a necessidade interior de outrora, de perguntar, de perguntar sempre. Ainda não se fez a pergunta e a resposta, uma qualquer resposta, aí está disponível, pronta a ser consumida e se necessário logo depois a ser deitada fora e substituída por outra, igualmente veloz e disponível.
Vivemos pois entre respostas que se foram substituindo ao perguntar mais insistente.
Um sonho que apontei mostrava-me o postal enviado por um amigo alemão. Reconheci a sua letra, aberta e generosa, de bom amigo.
Começava com esta pergunta, escrita em português, que ele fala bem (também é um bom amigo de Portugal) : Porquê ?
Este porquê prendeu-me a atenção, durante dias, até que decidi apontar o sonho.
E continuo a pensar no sentido profundo desta palavra que é interrogação.
A interrogação tem a ver com a consciência, a consciência de si, o conhecimento ou reconhecimento. No caso de um sonho, sendo a linguagem dos sonhos simbólica, este porquê aponta para algo mais do que a consciência, talvez antes o reconhecimento da necessidade do interrogar, a interrogação mais do que qualquer resposta.
Encontro nas Alices de Lewis Carroll – a do “País das Maravilhas” e a do “Através do Espelho” vários porquês, todos interessantes pelo momento em que surgem, pelo fascínio das personagens que lhes dão voz, pela perplexidade que causam, levando a novos porquês (novas interrogações).
Apercebo-me de que não interessa a resposta e ninguém em verdade espera por ela. O importante era a interrogação, e a consequente perplexidade causada.
É essa a função da pergunta: fazer pensar, e não obter uma resposta imediata, como se julga. Tinha razão a criança de outrora, ao não aceitar as respostas, umas atrás das outras, na pergunta residia o interesse, daí a repetição, a insistência…
Para este sonho que contei, também é preciso uma “pequena chave de ouro”, como a de Alice, que se esqueceu dela em cima da mesa ao diminuir de tamanho, não podendo assim entrar logo no jardim que tinha avistado pela porta mais pequena. Entrámos noutro mundo, noutra esfera, em que é preciso diminuir, para depois aumentar e continuar na aventura – uma aventura cheia de contradições, como nos sonhos, e que pelas contradições se resolvem. Um mundo de outra lógica e que de outra maneira tem de ser abordado.
“Quem diabo sou eu? Ah, esse é o grande enigma! “(p.22). Este é o capítulo II, em que surgem variadíssimos animais, revelando a Alice um outro mundo, que não responde logo à sua interrogação: na verdade, e Carroll sabia isso, só cada um por si pode responder às próprias interrogações!
Alice está no lago de lágrimas a conversar com o Rato, que lhe diz que primeiro têm de sair dali, depois ele contará a sua história:
“ Já não era sem tempo de fugiram dali, porque o lago estava a ficar apinhado de pássaros e animais que nele tinham caído: havia um Pato e um Dodó, uma Arara e uma pequena Águia, e várias outras estranhas criaturas. Alice pôs-se à frente deles e nadaram todos para terra firme”(p.29).
Simplifico: depois de uma figuração do que poderia ser uma descida ao inconsciente, ao mundo dos sonhos (Alice adormecera junto à árvore onde a irmã lhe lia um conto) assistimos a um conjunto de situações todas elas indicadoras de processos de transformação (os alquimista diriam de sublimação) desde as pulsões do negro da alma, os instintos, simbolizados pelos inúmeros animais de que a águia, ainda que pequena, é a mais espritual representante, até ao não menos provocante jogo com os 4 elementos: terra e água, para começar, enquanto não se alude ao fogo e ao ar, que virão adiante.
Mas não esqueço o meu fio conditor, da interrogação.
E é pela personagem da Lagarta que a interrogação melhor se manifesta:
“- Quem és tu?- perguntou” , a lagarta a Alice (p.49).
Neste diálogo assistimos à litania de perguntas que a cada resposta se sucedem, não aceitando o que é dado como explicação.
A Lagarta insiste: “Quem és tu? “ (p.50). E depois dá-lhe então o conselho que a fará aumentar novamente de tamanho; desta vez não come um bolo, mas um cogumelo e cresce ao ponto de ficar mais alta do que uma árvore, com a cabeça lá no alto a tocar o céu (entrou o elemento ar).
O interrogatório continua, pela voz de uma Pomba, que ela assustou tirando-a do ninho. A pomba, que a julgara serpente, pergunta “Bem !O que é que tu és? “ (p.56). E a resposta, de que Alice era uma menina, não a deixa satisfeita, como seria de esperar. Pois não se trata aqui de respostas, mas de perguntas, como já disse…
A pergunta agora não é quem, mas o que.
E ambas difíceis, no contexto do conto, como no de nós próprios e das nossas vidas e do mundo que nos rodeia, em permanente mutação.
Na verdade, se soubessemos o quem e o que – teríamos a resposta ao porquê com que comecei esta reflexão.
O porquê, enviado por carta oriunda da Alemanha - país da Alma, como alguém lhe chamou, contrapondo-o a França, país da Razão – terá que ver com as razões da alma, do seu esquecimento, talvez, numa altura em que preocupações do quotidiano familiar, social, politico, me afastam da escrita – meu caminhar interior.
Nesse meu caminhar, onde o tempo se torna espaço (como diz Gurnemanz a Parsifal, na obra de Wagner, falando do reino do Graal) – espaço de transformação da palavra ausente mas sempre desejada, descobrirei talvez o quem, o que e por fim o porquê!

Sunday, May 1, 2011

Versos

Muitas vezes é no primeiro verso de um poema, ou no último, ou em ambos que iremos encontrar alguma indicação especial, pedindo mais reflexão.
Aconteceu-me reparar nisso ao reler ultimamente o poema de Rilke sobre o mito de Orfeu e Eurídice.
" Era a mina estranha onde se encontram as almas" - eis o verso inicial.
Deste modo, aparentemente apenas descritivo de um lugar, evoca Rilke Platão, o diálogo de Fédon, em que se fala da caverna das almas, neste sentido de "essências" de ser, de formas puras de que as formas reais seriam apenas sombras (sombras de uma realidade superior, inatingível).
A mina- uma caverna platónica- é estranha exactamente por isso: por ser anterior aos seres tal qual os conhecemos.
Orfeu e Eurídice ainda lá se encontram, ainda não têm existência real, não são ainda as formas de que o mito tradicional nos fala.
Rilke coloca-nos numa outra esfera, de anterioridade. Diverge, sem que nos apercebamos logo desse facto, da realidade do mito.
Orfeu e Eurídice, ainda não são e em breve já não poderão vir a ser , tal como se julgava outrora, quando os mitos eram realidades vividas.
E podemos então meditar sobre o último verso, com que o poema termina:
"Quem?"
pergunta Eurídice, perdida toda a memória de um Orfeu que ainda não tinha sido e não seria mais.
Entre o não-ser-ainda da caverna das almas e o já-não-ser da memória perdida se estrutura um poema que podemos ler e reler, descobrindo de cada vez mais um fragmento do seu mistério envolvente.