Friday, April 22, 2011

O Centro: Orfeu. Eurídice. Hermes


Num célebre poema de Rainer Maria Rilke, inspirado nos hinos órficos da Grécia antiga, podemos acompanhar Orfeu e Eurídice, guiados pelo deus Hermes, caminhando nas trevas, procurando a luz da vida que Orfeu quer devolver à sua amada.
A viagem de Orfeu começou por uma descida ao Centro, à caverna profunda onde as almas se formam e onde, depois da morte, de novo são acolhidas.
Exterior ao tempo, no Centro não se guarda a memória: nem do que se foi nem do que se virá a ser. O Centro é devorador.
Atravessou-se primeiro o rio Lethes, precisamente aquele em que toda a memória se dissolve.
E ao emergir, como quem nasce, ou renasce, a vida que se inicia é como a página em branco que aguarda a mão perplexa do poeta com os seus primeiros versos.
Os versos são, como no longo poema-travessia de Rilke, apenas uma interrogação.
Eurídice, que não chega a abrir os olhos (nada vê, nada sabe, nada sente) não sai do sono profundo da interrogação: Quem? diz ela, e volta para trás, regressa ao Centro de onde nunca tinha saído.
Era ilusão de Orfeu, no seu caminho, confundir a sombra com a forma, o desejo com uma realidade em que a vida deixara de pulsar.
Meditemos sobre o Centro: " a mina estranha onde se encontram as almas".
Um Centro como um buraco negro, atravessado por finos fios de prata : fios de vida.
E dentro dos fios um sangue espesso correndo: a púrpura da vida.
Orfeu, com a sua lira, a Amada fechada em si, como um botão de rosa, ambos a caminhar e entre eles Hermes, o Guia.
Um Guia que não conduz, pois não indica o caminho, não faz sequer um gesto amigo que acalme a ansiedade que cresce, a dúvida que se instala, buraco no coração do poeta.
Tranquila, ainda envolta nos panos do seu primeiro sono, Eurídice caminha sobre o vazio imenso que nenhum medo perturba.
Hermes lançará então o grito aterrador: "olha! ele voltou-se!"
Orfeu cairá nesse vazio.
Eurídice exclama apenas: Quem?
E Hermes, o do caduceu dourado, nada responderá.
Não há respostas no Centro, apenas anulação.

Em Paul Celan encontraremos uma ainda mais dolorosa meditação do Abismo. Talvez porque ele não interrogue procurando resposta, mas simplesmente afirme e confirme a sua existência de absoluto Vazio, absoluto Sem-Fundo, como já o definiam os místicos alemães, os teósofos como Boehme, entre outros.
Num dos seus últimos poemas (Celan suicida-se em 1970, em Paris) encontramos estas imagens:
Projectado
na via de esmeralda
buraco de larva, buraco de estrela,
com todas as quilhas
procuro-te
Sem-fundo

A via de esmeralda será a da Tábua de Esmeralda dos antigos alquimistas: uma via de salvação, na medida em que nela se reflectem o Uno e o Todo do universo criado. A travessia será contudo parecida com a de Orfeu na sua treva imensa:
buraco de larva, buraco de estrela, isto é, um Centro (como era no poema de Rilke a mina das almas) de onde as formas partiam e onde acabariam igualmente por chegar, na sua última (de)composição.
Nas imagens da larva e da estrela encontramos o segredo de uma transformação, ou transmutação desejada: na larva a essência não manifestada, na estrela ( podia ser borboleta, como em Alice no País das Maravilhas) o fulgôr da manifestação, do acabamento perfeito de toda a pulsão oculta.
A referência às quilhas remete-nos para o belo poema de Rimbaud, Le Bâteau Ivre , que foi marco de toda a poesia modernista (Álvaro de Campos entre nós, e Celan, que o traduziu).
Rimbaud explode como um barco que embate e se afunda, no seu poema, como se afundará na sua vida.
Celan, demasiado contido, não explode, mas inquire e sofre, pois não encontrará o que procura: uma resposta para o silêncio de Deus perante o seu povo perseguido.
Este Sem-Fundo é um eterno Nada, e o que podemos concluir é que no homem reside o Centro, em si e não fora de si, nalgum outro lugar que se conceba. No homem reside o princípio e o fim, o homem é o meio,por ele passa a linha que os atravessa, os separa e os une.
São paradoxais as realidades da alma, os poetas dão voz a essas realidades. E citando Celan é "descendo mais fundo" que o homem se liberta.


Sunday, April 10, 2011

Das Trevas

Das trevas não tenho medo
só da luz por trás do espelho:
Alice feita relógio
Alice feita coelho...

A Sombra / O Medo (cont. com Erica)

E como ficou Penélope
quando Ulisses regressado
se escondeu do seu olhar
se mostrou desconfiado
e lhe retirou os fios
e desfez todos os nós

os nós que ela tinha atado...

A Sombra / O Medo


A Sombra / O Medo (respondendo a Erica)

Hermes estava perdido
no meio da sua sombra
e Eurídice que o seguia
tinha esquecido o caminho

O caminho e o caminhante
Orfeu que viria salvá-la
da nigredo e da memória
desafiando o destino

Wednesday, March 30, 2011

A Sombra / O Medo

Recordação das Correntes d'Escrita, onde acabei por escrever um poema que proponho para ideia - base de outros que o queiram "abrir", como numa espécie de cadáver esquisitíssimo. Um ponto de partida, nada mais:

Que sombras saem da sombra
e que dizer do silêncio
que nos afoga em palavras
e dentro delas o medo

Thursday, March 17, 2011

Da Importância da Memória


Tudo na Escrita é Memória?
Com Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido, obra de arte literária universal) poderíamos dizer que sim.
O mesmo com muitos outros, em cujos romances ou poemas encontramos um caminho feito de recuperação de memórias, antigas ou recentes, de leituras ( a leitura que nos marca deixa a sua marca de memória).
Ao reler a obra da Princesa Shikishi, poeta japonesa do século XII (conhece-se a data da sua morte, em 1201), traduzida para inglês por Hiroaki Sato, encontro uma epígrafe que ele coloca no início, como homenagem a uma outra poeta que parece ser emblemática para a essência mesma do livro da Princesa, cujo título é String of Beads, Colar de Contas (na verdade pérolas da sensibilidade poética da autora); eis o poema citado como epígrafe:
I am not a person.
I am a succession of persons
Held together by memory.

When the string breaks,
The beads scatter.
( Lindley Williams Hubbell)

Traduzindo:
Não sou uma pessoa.
Sou uma sucessão de pessoas
Reunidas pela memória.

Quando o cordão se rompe,
as contas espalham-se.
(l.W.Hubbell)

Nos poemas da Princesa, escritos em Kyoto, no ambiente de uma corte medieval, numa sociedade fechada como era a sociedade japonesa, de resto ainda hoje extremamente discreta e reservada, cumprem-se as normas rigorosas do Haiku e seus temas preferenciais: indicação da estação do ano (marcando a memória do tempo), e condensação poética de dois versos para uma imagem/uma ideia, exprimindo a sensação/emoção do momento; porque os ciclos podem ser "soltos" e sem marca temporal, mantendo só o tema principal.
Escolho ao acaso, do ciclo do "amar e esperar":

À tua espera, não vou para o meu quarto. / Não brilhes sobre a porta de madeira de cipreste, lua junto aos montes.

Ou ainda:

Se eu não fosse viva ele não seria tão cruel, até ao dia seguinte./ Visita-me esta noite, se puderes.

Mas deixemos os Haiku e falemos da memória, o repositório que une sensações e emoções, e as transforma no todo único que permite que uma pessoa e a sua consciência de ser se revelam como tal: um todo único.
Não havendo memória não haveria tal consciência, mas antes a permanente inquietação do que se é, onde se situa o centro ( ou o fio, como no colar de contas) que nos define e garante que somos o que somos e não um esparso conjunto de sensações ou emoções de fragmentação e deriva.
A Fractura que esta desconexão indicia é própria da modernidade e dos cultores da poesia ou prosa do século XX ( o mesmo se dá na Arte) sobretudo com as teorias e práticas modernistas do início do século.
O poeta do modernismo interroga, perplexo, a sua consciência:
Vamos a Fernando Pessoa, num dos primeiros ciclos, datados de 1913:
ALÉM-DEUS
I / ABISMO
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando -
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é ôco -
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo - eu e o mundo em redor -
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, ideia, alma de nome,
A mim, à terra e aos céus...

E súbito encontro Deus.

A primeira estrofe é da maior importância, no poema: ali o poeta se interroga sobre o que é ser, e a interrogação do ser -do-rio o levará à interrogação e consciência de si próprio.
Caído num ôco em que o ser se perde, num vazio de sentimento e pensamento que o torna alheio a si e ao mundo em redor, é nesse adormecimento, nessa sombra, nesse escuro de alma que virá a descobrir Deus.
Mas não ficamos com a certeza que o mais importante tenha sido a descoberta de Deus , pois o resto do poema não mais se debruçará sobre a experiência transcendente que a exclamação anterior figura.
Pelo contrário, o mais importante é, por um lado, a interrogação do real ( o rio) e por outro o esvaziamento de alma, como na experiência do Nirvâna budista - esvaziamento que abre as portas do dizer do inconsciente.
Alguns falariam de descida ao inconsciente e natural expressão de imagens próximas das imagens oníricas, as produzidas nos sonhos e de que nem sempre nos lembramos.
A descida permite que elas se façam lembrar, e a descida não é mais do que um esvaziamento da consciência que favorece que novas formas surjam.
A esta conclusão nos leva a Quinta Parte do poema, em que já para além do Além- Deus do título do ciclo, se penetra no imaginário surreal próprio do sono e do sonho, mas mantendo, como estrutura funda a interrogação:
V / BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO UM GLÁDIO
Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?...E eu não fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...

Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando - o pombal
Está-lhe sempre à direita, ou é real?

Deus é um grande intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo?
Quem é que me vê?
Erro-me...E o pombal elevado
Está em tôrno da pomba, ou de lado?

O gládio de um braço sem corpo é a figuração de uma racionalidade aguda, cortante, que separa os dois níveis de uma psique ( de um Eu ) em fractura, a consciência e o inconsciente (o sonho que dele emana);haverá fio - isto é, ligação- entre o ser e o ter a consciência de que se é? Ou está perdido, de momento ou mesmo para sempre, o elo que ligaria o poeta à eterna Cadeia de Ser de que nos fala Arthur O. Lovejoy, em The Great Chain of Being?Para existir é necessário ser visto? E por quem, senão pelo próprio ( a sua consciência) na contemplação do espelho dos seus sonhos ( o seu inconsciente)?
Fala o poeta da "escada absoluta sem degraus" numa estrofe anterior: os degraus só poderiam ser construções, reconstruções, das "contas" do colar da memória.
Sem memória como haveria interrogação possível?
E como se poderia pressentir ausência ou existência de consciência, de Deus, do mundo (o rio, a árvore, o pombal com a sua pomba) ou de nós mesmos?
A Princesa do Japão evoca, nos seus poemas, as memórias com que ficou ao retirar-se para um convento, do seu amor perdido: memórias de lágrimas, esperanças, alegrias e tristezas; Pessoa procura transgressões, com a desmultiplicação heteronímica, mas regressará sempre a si mesmo, recuperando as contas do seu colar oculto de memórias antigas.