Wednesday, March 30, 2011

A Sombra / O Medo

Recordação das Correntes d'Escrita, onde acabei por escrever um poema que proponho para ideia - base de outros que o queiram "abrir", como numa espécie de cadáver esquisitíssimo. Um ponto de partida, nada mais:

Que sombras saem da sombra
e que dizer do silêncio
que nos afoga em palavras
e dentro delas o medo

Thursday, March 17, 2011

Da Importância da Memória


Tudo na Escrita é Memória?
Com Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido, obra de arte literária universal) poderíamos dizer que sim.
O mesmo com muitos outros, em cujos romances ou poemas encontramos um caminho feito de recuperação de memórias, antigas ou recentes, de leituras ( a leitura que nos marca deixa a sua marca de memória).
Ao reler a obra da Princesa Shikishi, poeta japonesa do século XII (conhece-se a data da sua morte, em 1201), traduzida para inglês por Hiroaki Sato, encontro uma epígrafe que ele coloca no início, como homenagem a uma outra poeta que parece ser emblemática para a essência mesma do livro da Princesa, cujo título é String of Beads, Colar de Contas (na verdade pérolas da sensibilidade poética da autora); eis o poema citado como epígrafe:
I am not a person.
I am a succession of persons
Held together by memory.

When the string breaks,
The beads scatter.
( Lindley Williams Hubbell)

Traduzindo:
Não sou uma pessoa.
Sou uma sucessão de pessoas
Reunidas pela memória.

Quando o cordão se rompe,
as contas espalham-se.
(l.W.Hubbell)

Nos poemas da Princesa, escritos em Kyoto, no ambiente de uma corte medieval, numa sociedade fechada como era a sociedade japonesa, de resto ainda hoje extremamente discreta e reservada, cumprem-se as normas rigorosas do Haiku e seus temas preferenciais: indicação da estação do ano (marcando a memória do tempo), e condensação poética de dois versos para uma imagem/uma ideia, exprimindo a sensação/emoção do momento; porque os ciclos podem ser "soltos" e sem marca temporal, mantendo só o tema principal.
Escolho ao acaso, do ciclo do "amar e esperar":

À tua espera, não vou para o meu quarto. / Não brilhes sobre a porta de madeira de cipreste, lua junto aos montes.

Ou ainda:

Se eu não fosse viva ele não seria tão cruel, até ao dia seguinte./ Visita-me esta noite, se puderes.

Mas deixemos os Haiku e falemos da memória, o repositório que une sensações e emoções, e as transforma no todo único que permite que uma pessoa e a sua consciência de ser se revelam como tal: um todo único.
Não havendo memória não haveria tal consciência, mas antes a permanente inquietação do que se é, onde se situa o centro ( ou o fio, como no colar de contas) que nos define e garante que somos o que somos e não um esparso conjunto de sensações ou emoções de fragmentação e deriva.
A Fractura que esta desconexão indicia é própria da modernidade e dos cultores da poesia ou prosa do século XX ( o mesmo se dá na Arte) sobretudo com as teorias e práticas modernistas do início do século.
O poeta do modernismo interroga, perplexo, a sua consciência:
Vamos a Fernando Pessoa, num dos primeiros ciclos, datados de 1913:
ALÉM-DEUS
I / ABISMO
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando -
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é ôco -
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo - eu e o mundo em redor -
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, ideia, alma de nome,
A mim, à terra e aos céus...

E súbito encontro Deus.

A primeira estrofe é da maior importância, no poema: ali o poeta se interroga sobre o que é ser, e a interrogação do ser -do-rio o levará à interrogação e consciência de si próprio.
Caído num ôco em que o ser se perde, num vazio de sentimento e pensamento que o torna alheio a si e ao mundo em redor, é nesse adormecimento, nessa sombra, nesse escuro de alma que virá a descobrir Deus.
Mas não ficamos com a certeza que o mais importante tenha sido a descoberta de Deus , pois o resto do poema não mais se debruçará sobre a experiência transcendente que a exclamação anterior figura.
Pelo contrário, o mais importante é, por um lado, a interrogação do real ( o rio) e por outro o esvaziamento de alma, como na experiência do Nirvâna budista - esvaziamento que abre as portas do dizer do inconsciente.
Alguns falariam de descida ao inconsciente e natural expressão de imagens próximas das imagens oníricas, as produzidas nos sonhos e de que nem sempre nos lembramos.
A descida permite que elas se façam lembrar, e a descida não é mais do que um esvaziamento da consciência que favorece que novas formas surjam.
A esta conclusão nos leva a Quinta Parte do poema, em que já para além do Além- Deus do título do ciclo, se penetra no imaginário surreal próprio do sono e do sonho, mas mantendo, como estrutura funda a interrogação:
V / BRAÇO SEM CORPO BRANDINDO UM GLÁDIO
Entre a árvore e o vê-la
Onde está o sonho?
Que arco da ponte mais vela
Deus?...E eu não fico tristonho
Por não saber se a curva da ponte
É a curva do horizonte...

Entre o que vive e a vida
Pra que lado corre o rio?
Árvore de folhas vestida -
Entre isso e Árvore há fio?
Pombas voando - o pombal
Está-lhe sempre à direita, ou é real?

Deus é um grande intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo?
Quem é que me vê?
Erro-me...E o pombal elevado
Está em tôrno da pomba, ou de lado?

O gládio de um braço sem corpo é a figuração de uma racionalidade aguda, cortante, que separa os dois níveis de uma psique ( de um Eu ) em fractura, a consciência e o inconsciente (o sonho que dele emana);haverá fio - isto é, ligação- entre o ser e o ter a consciência de que se é? Ou está perdido, de momento ou mesmo para sempre, o elo que ligaria o poeta à eterna Cadeia de Ser de que nos fala Arthur O. Lovejoy, em The Great Chain of Being?Para existir é necessário ser visto? E por quem, senão pelo próprio ( a sua consciência) na contemplação do espelho dos seus sonhos ( o seu inconsciente)?
Fala o poeta da "escada absoluta sem degraus" numa estrofe anterior: os degraus só poderiam ser construções, reconstruções, das "contas" do colar da memória.
Sem memória como haveria interrogação possível?
E como se poderia pressentir ausência ou existência de consciência, de Deus, do mundo (o rio, a árvore, o pombal com a sua pomba) ou de nós mesmos?
A Princesa do Japão evoca, nos seus poemas, as memórias com que ficou ao retirar-se para um convento, do seu amor perdido: memórias de lágrimas, esperanças, alegrias e tristezas; Pessoa procura transgressões, com a desmultiplicação heteronímica, mas regressará sempre a si mesmo, recuperando as contas do seu colar oculto de memórias antigas.







Tuesday, March 8, 2011

The Hare with Amber Eyes

Uma obra-prima, em breve a ser apresentada em português, pela Sextante.
Como a partir de uma herança de peças japonesas, os netsuke, miniaturas de colecção em que a arte do mínimo se alarga aos grandes sentimentos universais -como a paixão - se consegue escrever uma obra por onde passa toda uma época, a de um Paris elegante onde tudo se tornava possível: o fulgôr da riqueza, o fulgôr da beleza, lado a lado com a luz só aparentemente menor da inscrição no mínimo, o netsuke.
Leitura recomendada para quem deseje escrever.
Anote-se a minúcia, o cuidado, o poder de observação e descrição - das peças evoluindo para as pessoas, algumas reais outras certamente ficcionadas.

Tuesday, March 1, 2011

Rui Zink


Vem mesmo a propósito, esta reedição do ANIBALEITOR de Rui Zink.
Trata-se de um livro leve mas culto (guarda nas entrelinhas a erudição que o inspira) prazeiroso (como diriam alguns brasileiros amigos) e muito divertido.
Em suma, redescobrir esta prosa saudável é um conforto de alma.
Alguns escritores, ao crescer no sucesso, envelhecem. A pose e a antiga inspiração secam em simultâneo.
Mas felizmente para nós, leitores, nem todos envelhecem assim, pomposos, aborrecidos, pensando que uma reedição não merece entusiasmo, do próprio e dos outros, que vão ler, se não leram antes. É o meu caso, não tinha lido antes.
E aqui recomendo, aos que desejam aprender "escrita criativa" que comecem, antes de tudo, por ler.
Ler e reler.
E então navegar nas torrentes da escrita. Quem leu, não se afogará - e dos outros não devemos ter pena.
Esta leitura foi para mim como que respirar de novo num país algo abafado, pela pompa e pela circunstância ( mas desta não falarei aqui...)

Monday, February 28, 2011

Correntes d' Escritas


Um encontro internacional de escritores que vai na décima segunda edição, decorre na Póvoa de Varzim, em vários espaços que não deixam de fora as escolas com alunos e professores a quem se concede o privilégio de conhecer e falar com poetas, romancistas, criadores que com eles discutem os seus processos de criação.
Este ano havia uma interessante mistura de portugueses e ibero-americanos, e africanos de várias gerações.
Havia os habituais, que não quiseram faltar, e os que lá estavam, nessas correntes que eu chamei de torrentes, pela primeira vez. Para estes, em cujo grupo me incluo, o encontro foi uma revelação.
As sessões decorreram num anfiteatro sempre apinhado de gente de todas as idades, vinda de todos os lados e que ali se reunia para comprar os livros dos "lançamentos", ou outros que queriam de edições anteriores.
As várias sessões das várias mesas tinham temas que era suposto os convidados desenvolverem. Dou um exemplo: "Não há palavras exactas".
Ocorreu-me que eu poderia ter participado nessa mesa:
De palavras exactas, as que nunca se encontram, falara eu outrora no meu romance, já tão antigo, primeira edição de 1972, chamado As Palavras Que Pena. O final da história que contava era trágico, com um jovem que para descobrir as palavras exactas ( da verdade, da comunicação, do amor que se deseja ouvir e exprimir) estrangula a jovem que perseguira na praia. Uma jovem que viera de longe, também ela em busca de alguma verdade, de um Absoluto impossível de palavras exactas , e acabaria por morrer ali às mãos de um acaso de vida semelhante ao seu:
"...As mãos do rapaz instalaram-se na garganta de Vera. Como não dizia nada as mãos começaram a apertar devagarinho. Vamos obrigar as palavras a sair. Ajude-me. Faça as palavras sair enquanto eu as empurro. Vera deixou de tremer. Já não sentia medo. Apenas a certeza. La Mort, à tout jamais la Mort, maintenant.Ouviu de longe o ralo espesso que lhe saía da boca e parecia vir de outra boca de outra pessoa diferente. Está quase, disse o rapaz. Já oiço qualquer coisa. As mãos apertaram com mais força (...) Que pena,murmurou. Que pena, as palavras saíram esborrachadas".
Na sua edição actual este romance está incluído no conjunto das edições ASA/LEYA intitulado TRÊS HISTÓRIAS DE AMOR.
Escrito aos trinta anos eu ouvia agora de longe o seu eco, como que a lembrar-me que para esta questão eterna, da busca da verdade (da exactidão?) das palavras não há tempos diferentes , a questão, por ser vital e universal é e será de todos os tempos e todas as gerações.
A sessão em que participei tinha por tema "Nada no mundo deve ser subestimado".
Parti então de um belíssimo poema de Paul Celan, Entrada de Violoncelos que termina de um modo verdadeiro e pungente, como tudo o que ele escreve:
Tudo é menos, do
que é,
tudo é mais.
Deste poema parti para outro, de Paulinho Assunção ( que esteve nestas Correntes em 2010) com o seu poema inspirado em Celan e tendo por título Mazurca para dois violoncelos.
A minha ideia é que também as imagens poéticas se contaminam umas às outras e "não devem ser subestimadas". Dessa contaminação nasce outra ideia, outra imagem , outro poema, como aconteceu neste caso.
O mesmo se pode aplicar à escrita romanesca: todo o detalhe, por pequeno que seja, se torna importante ao ser escrito e integrado no todo da narrativa.
Foi o que me aconteceu com o romance DO LONGE E DO PERTO, edição da SEXTANTE, que fui apresentar com o meu editor e amigo João Rodrigues.
Neste romance também eu, ainda sem conhecer os temas que seriam escolhidos, tinha procurado que nada fosse subestimado, nem do longe, nem do perto, nem do sonho, nem da vida.
É um romance que atravessa - tempos, espaços, história, memória - e se deixa atravessar.
A capa, do atelier de Henrique Cayatte sobre um quadro do americano Edward Hopper, resume bem o romance: o de uma mulher que, sentada à janela, olha o mundo: o seu e o dos outros; pois no dos outros ( não o subestimando) está contido o seu.
Os encontros das Correntes d'Escrita também têm uma mulher que olha o mundo: refiro-me à organizadora, Manuela Ribeiro.
A ela, à sua energia e à sua alegria fiel, pois em cada novo ano recomeça, todos nós, do longe e do perto, devemos um agradecimento muito especial e uma saudação.
Que as correntes, que são torrentes de alma, continuem.



Sunday, February 13, 2011

Breton e os seus Manifestos

Esta fotografia que Man Ray fez de André Breton em 1931 levou-me a reler os Manifestos do Surrealismo e as razões pelas quais o terceiro do conjunto foi considerado inútil para os fins ideológicos em vista..
A tentativa, que ficou incompleta, de um Terceiro Manifesto do Surrealismo, mostra como é difícil, na arte ou no exercício da Escrita Criativa, manter um modelo ideológico de enquadramento teórico, fechado, como Breton preconizava de início.
A arte é livre, só em liberdade poderia evoluir.
Ora esses mesmos, praticantes do cadavre-exquis, forma tão inovadora e tão provocadora de dar voz ao inconsciente a várias mãos, como poderiam aceitar que a sua produção, de maior ou menor originalidade, conforme os casos (nem todos seriam génios, como dizia Salvador Dali, que cortou com o grupo) se orientasse mais para a transmissão de lições políticas do que para a fruição máxima do Belo na arte que era a sua?
Eles, os libertadores por excelência na área do Modernismo?
A intervenção política tivera o seu momento, com o Expressionismo, com o Futurismo - aliás de posições ideológicas opostas: os primeiros defendendo o marxismo, os últimos, como no caso de Marinetti, não recusando o fascismo.
Suspensa a ideia de um terceiro manifesto que pudesse ser inovador, e mais útil do que os outros, recuperou-se a sonhadora alegria de um imaginário onírico puro, dando origem a poemas, a novelas, a desenhos e pinturas de que entre nós ainda Artur do Cruzeiro Seixas, felizmente vivo, dá testemunho.

Já de resto, noutro campo, Fernando Pessoa e Cia. não tinham conseguido levar a bom termo o n.3 de Orpheu.
Entre algum Simbolismo já descrente de si mesmo, passando para um exercício que se poderia dizer, em alguns, como Fernando Pessoa ou Augusto Ferreira Gomes de "escrita automática", a teoria fundadora (fosse a sensacionista, a futurista ou outra) falhara, como acabam por falhar todas as teorias.
Não usemos esse termo: falhar, digamos esgotar.
As teorias esgotam-se, pelo facto de o serem.
Só a inspiração permanece, e só os dotados dessa forma de génio progridem no seu caminho.
O que fazem?
No caso da escrita, escrevem.
A inspiração, chegado o momento, não faltará.

Friday, November 26, 2010

A Intuição

Sem intuição não há arte?
Eu diria que não há arte sem trabalho!
Na ciência como na arte parte-se de uma súbita ideia, uma súbita imagem (nisso artistas e cientistas têm muito de semelhante) que surge por intuição mas que depois é preciso ampliar, desenvolver, fundamentar (no caso da ciência com argumentos já de racionalidade e experimentação) até chegar a um resultado que consideramos final.
Intuição, imaginação criadora, são qualidades que o escritor possuirá mas que sem uma sólida cultura de base, e sem a reflexão e capacidade de crítica e auto-crítica que se lhe devem aliar, de pouco servirão. Pode escrever, sim, mas sem benefício real para si mesmo ou para os outros ( refiro-me a benefício de alma, não de dinheiro).
Dirão: mas se tem intuição, sensibilidade - isso não chega?
A resposta é não.
Se consultarmos o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo veremos que a definição de intuição é a dada altura a seguinte:
"...acto de ver/pressentimento/ percepção rápida/conhecimento claro".
Fiquemos no conhecimento claro, a meu ver assente num conjunto de conhecimentos adquiridos, assimilados, numa reserva de saber, no que se chama vulgarmente cultura.
A cultura é indispensável porque é a cultura - literária, filosófica, artística em geral - que alimenta o nosso próprio "fundo" de ideias, o nosso "armazém", que permite no inconsciente que outras ideias e imagens vão tomando forma, mas com boas raízes de conhecimento elaborado.
E mais: a cultura adquirida permite "comparar": sem poder comparar como saberemos se o que estamos a fazer já foi feito por outrem e até muito melhor? E nesse caso o que temos é de seguir para a frente, buscando o nosso caminho e não o que já foi trilhado.