Monday, February 28, 2011

Correntes d' Escritas


Um encontro internacional de escritores que vai na décima segunda edição, decorre na Póvoa de Varzim, em vários espaços que não deixam de fora as escolas com alunos e professores a quem se concede o privilégio de conhecer e falar com poetas, romancistas, criadores que com eles discutem os seus processos de criação.
Este ano havia uma interessante mistura de portugueses e ibero-americanos, e africanos de várias gerações.
Havia os habituais, que não quiseram faltar, e os que lá estavam, nessas correntes que eu chamei de torrentes, pela primeira vez. Para estes, em cujo grupo me incluo, o encontro foi uma revelação.
As sessões decorreram num anfiteatro sempre apinhado de gente de todas as idades, vinda de todos os lados e que ali se reunia para comprar os livros dos "lançamentos", ou outros que queriam de edições anteriores.
As várias sessões das várias mesas tinham temas que era suposto os convidados desenvolverem. Dou um exemplo: "Não há palavras exactas".
Ocorreu-me que eu poderia ter participado nessa mesa:
De palavras exactas, as que nunca se encontram, falara eu outrora no meu romance, já tão antigo, primeira edição de 1972, chamado As Palavras Que Pena. O final da história que contava era trágico, com um jovem que para descobrir as palavras exactas ( da verdade, da comunicação, do amor que se deseja ouvir e exprimir) estrangula a jovem que perseguira na praia. Uma jovem que viera de longe, também ela em busca de alguma verdade, de um Absoluto impossível de palavras exactas , e acabaria por morrer ali às mãos de um acaso de vida semelhante ao seu:
"...As mãos do rapaz instalaram-se na garganta de Vera. Como não dizia nada as mãos começaram a apertar devagarinho. Vamos obrigar as palavras a sair. Ajude-me. Faça as palavras sair enquanto eu as empurro. Vera deixou de tremer. Já não sentia medo. Apenas a certeza. La Mort, à tout jamais la Mort, maintenant.Ouviu de longe o ralo espesso que lhe saía da boca e parecia vir de outra boca de outra pessoa diferente. Está quase, disse o rapaz. Já oiço qualquer coisa. As mãos apertaram com mais força (...) Que pena,murmurou. Que pena, as palavras saíram esborrachadas".
Na sua edição actual este romance está incluído no conjunto das edições ASA/LEYA intitulado TRÊS HISTÓRIAS DE AMOR.
Escrito aos trinta anos eu ouvia agora de longe o seu eco, como que a lembrar-me que para esta questão eterna, da busca da verdade (da exactidão?) das palavras não há tempos diferentes , a questão, por ser vital e universal é e será de todos os tempos e todas as gerações.
A sessão em que participei tinha por tema "Nada no mundo deve ser subestimado".
Parti então de um belíssimo poema de Paul Celan, Entrada de Violoncelos que termina de um modo verdadeiro e pungente, como tudo o que ele escreve:
Tudo é menos, do
que é,
tudo é mais.
Deste poema parti para outro, de Paulinho Assunção ( que esteve nestas Correntes em 2010) com o seu poema inspirado em Celan e tendo por título Mazurca para dois violoncelos.
A minha ideia é que também as imagens poéticas se contaminam umas às outras e "não devem ser subestimadas". Dessa contaminação nasce outra ideia, outra imagem , outro poema, como aconteceu neste caso.
O mesmo se pode aplicar à escrita romanesca: todo o detalhe, por pequeno que seja, se torna importante ao ser escrito e integrado no todo da narrativa.
Foi o que me aconteceu com o romance DO LONGE E DO PERTO, edição da SEXTANTE, que fui apresentar com o meu editor e amigo João Rodrigues.
Neste romance também eu, ainda sem conhecer os temas que seriam escolhidos, tinha procurado que nada fosse subestimado, nem do longe, nem do perto, nem do sonho, nem da vida.
É um romance que atravessa - tempos, espaços, história, memória - e se deixa atravessar.
A capa, do atelier de Henrique Cayatte sobre um quadro do americano Edward Hopper, resume bem o romance: o de uma mulher que, sentada à janela, olha o mundo: o seu e o dos outros; pois no dos outros ( não o subestimando) está contido o seu.
Os encontros das Correntes d'Escrita também têm uma mulher que olha o mundo: refiro-me à organizadora, Manuela Ribeiro.
A ela, à sua energia e à sua alegria fiel, pois em cada novo ano recomeça, todos nós, do longe e do perto, devemos um agradecimento muito especial e uma saudação.
Que as correntes, que são torrentes de alma, continuem.



Sunday, February 13, 2011

Breton e os seus Manifestos

Esta fotografia que Man Ray fez de André Breton em 1931 levou-me a reler os Manifestos do Surrealismo e as razões pelas quais o terceiro do conjunto foi considerado inútil para os fins ideológicos em vista..
A tentativa, que ficou incompleta, de um Terceiro Manifesto do Surrealismo, mostra como é difícil, na arte ou no exercício da Escrita Criativa, manter um modelo ideológico de enquadramento teórico, fechado, como Breton preconizava de início.
A arte é livre, só em liberdade poderia evoluir.
Ora esses mesmos, praticantes do cadavre-exquis, forma tão inovadora e tão provocadora de dar voz ao inconsciente a várias mãos, como poderiam aceitar que a sua produção, de maior ou menor originalidade, conforme os casos (nem todos seriam génios, como dizia Salvador Dali, que cortou com o grupo) se orientasse mais para a transmissão de lições políticas do que para a fruição máxima do Belo na arte que era a sua?
Eles, os libertadores por excelência na área do Modernismo?
A intervenção política tivera o seu momento, com o Expressionismo, com o Futurismo - aliás de posições ideológicas opostas: os primeiros defendendo o marxismo, os últimos, como no caso de Marinetti, não recusando o fascismo.
Suspensa a ideia de um terceiro manifesto que pudesse ser inovador, e mais útil do que os outros, recuperou-se a sonhadora alegria de um imaginário onírico puro, dando origem a poemas, a novelas, a desenhos e pinturas de que entre nós ainda Artur do Cruzeiro Seixas, felizmente vivo, dá testemunho.

Já de resto, noutro campo, Fernando Pessoa e Cia. não tinham conseguido levar a bom termo o n.3 de Orpheu.
Entre algum Simbolismo já descrente de si mesmo, passando para um exercício que se poderia dizer, em alguns, como Fernando Pessoa ou Augusto Ferreira Gomes de "escrita automática", a teoria fundadora (fosse a sensacionista, a futurista ou outra) falhara, como acabam por falhar todas as teorias.
Não usemos esse termo: falhar, digamos esgotar.
As teorias esgotam-se, pelo facto de o serem.
Só a inspiração permanece, e só os dotados dessa forma de génio progridem no seu caminho.
O que fazem?
No caso da escrita, escrevem.
A inspiração, chegado o momento, não faltará.

Friday, November 26, 2010

A Intuição

Sem intuição não há arte?
Eu diria que não há arte sem trabalho!
Na ciência como na arte parte-se de uma súbita ideia, uma súbita imagem (nisso artistas e cientistas têm muito de semelhante) que surge por intuição mas que depois é preciso ampliar, desenvolver, fundamentar (no caso da ciência com argumentos já de racionalidade e experimentação) até chegar a um resultado que consideramos final.
Intuição, imaginação criadora, são qualidades que o escritor possuirá mas que sem uma sólida cultura de base, e sem a reflexão e capacidade de crítica e auto-crítica que se lhe devem aliar, de pouco servirão. Pode escrever, sim, mas sem benefício real para si mesmo ou para os outros ( refiro-me a benefício de alma, não de dinheiro).
Dirão: mas se tem intuição, sensibilidade - isso não chega?
A resposta é não.
Se consultarmos o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo veremos que a definição de intuição é a dada altura a seguinte:
"...acto de ver/pressentimento/ percepção rápida/conhecimento claro".
Fiquemos no conhecimento claro, a meu ver assente num conjunto de conhecimentos adquiridos, assimilados, numa reserva de saber, no que se chama vulgarmente cultura.
A cultura é indispensável porque é a cultura - literária, filosófica, artística em geral - que alimenta o nosso próprio "fundo" de ideias, o nosso "armazém", que permite no inconsciente que outras ideias e imagens vão tomando forma, mas com boas raízes de conhecimento elaborado.
E mais: a cultura adquirida permite "comparar": sem poder comparar como saberemos se o que estamos a fazer já foi feito por outrem e até muito melhor? E nesse caso o que temos é de seguir para a frente, buscando o nosso caminho e não o que já foi trilhado.


Sunday, September 12, 2010

Escrever

Uma das perguntas mais frequentes é :
como se escreve (um romance, um poema, uma peça de teatro) ?Quero escrever e não sei como.
A resposta mais rápida, mais sensata e mais útil será: escreve-se escrevendo.
Haverá alguns requisitos básicos, não o nego: conhecer bem a língua em que se escreve.
Para se conhecer bem a nossa língua temos de ter:
um vocabulário alargado
conhecimentos de gramática
uma boa capacidade de articulação do pensamento,
que levará a uma boa capacidade de expressão, de comunicação.

É da capacidade de expressão que falamos quando falamos de criatividade na escrita.
Como em tudo, também na escrita a experiência ajuda a que se aprofundem as ideias e os temas que se desejem tratar.
Dessa experiência fará parte, necessariamente, a leitura.
O meu conselho é que se leia: se leia muito, se leia tudo, de preferência a produção de grandes autores da esfera universal, mas também a literatura dita menor é boa de se ler, se não houver mais nada.
Lembro-me de ler, aos dez-onze anos, todos os livros policiais que existiam em casa dos tios com quem passava férias de Verão (outrora eram grandes...) e todos os policiais que o meu pai comprava nas edições originais em inglês, fazendo com que eu rapidamente dominasse essa língua.
Ainda hoje leio policiais, são para mim formas de descansar o pensamento...

Também li novelas côr-de-rosa, revistas de quadradinhos, e isso enquanto, por exemplo (e já com doze anos) lia a obra de Júlio Dinis. Não posso dizer que a tenha apreciado muito, na altura, mas li.
Como fui lendo, ao longo dos anos, todos os grandes da nossa literatura, começando na lírica medieval e acabando como era o costume da época, com Eça de Queiroz.Isto nos anos de liceu. Ainda que não constassem dos programas oficiais, também li os neo-realistas e lá fui chegando devagar aos modernos e contemporâneos:
Pessoa (na voz de Ricardo Reis) e Sophia de Mello Breyner foram para mim aos dezassete-dezoito anos grandes revelações.
O resultado de se ler bons autores da nossa língua é que melhoramos e alargamos o domínio vocabular e as formas gramaticais, articulando bem as frases, declinando bem os verbos, respeitando a relação do sujeito com os complementos, etc.
A gramática ( a forma) não é tudo, mas é parte. Ainda que mais tarde a possamos destruir, na busca de um estilo que diremos outro, próprio.
Mas na arte, e a escrita é arte, é preciso construir para poder, criando, destruir.
Se existe o impulso da escrita? Existe, ou não se escreveria.
Sobre esse impulso se desenvolve depois o resto do trabalho.